AVENIDA DA POESIA – Antóno Osório, João Machado e Vasco Graça Moura

 

António Osório

(Setúbal, 1933)

 

PESO DO MUNDO

 

 

A poesia não é, nunca foi

uma enumeração ou composto

de exuberância, bondade,

altitude, nem arado

ou dádiva sobre chão

prenhe de mortos.

 

Nem o arrependimento

de Deus por ter criado o homem

com o rosto da sua memória,

ao lado dos seus vermes.

 

Tão-pouco fôlego dos que amam

abrindo a porta límpida

do corpo e chovendo sobre a terra,

ou carregam como tartarugas

o peso do mundo.

 

Nem reverência por um tigre,

pela leveza maligna de todas as patas,

pela sonolência junto à estirpe

aprisionada também

na dureza de ser tigre.

 

É o milagre de uma arma

total, de uma só palavra

reduzindo o átomo à completa inocência.

 

(A Ignorância da Morte)




João Machado

(Lisboa, 1943)

 

SOBRE UM MAU POETA

 

Vou contar-vos uma tragédia

De um senhor que queria ser poeta

Fazer lindos versos tinha por meta

Resultava sempre uma fraca comédia

 

Rimas pobres era uma praga

Pontapés na gramática em cada linha

Pois a falta de talento esmaga

Quem tem pouco juízo na pinha

 

A poesia é a arte de comunicar

De quem tem o sentimento, a excepção

Com quem vive o dia banal, o vulgar

 

Transmitir o fogo, a modulação

De querer, sofrer, lutar, amar

Sem dos medíocres vir atrapalhação

 

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Vasco Graça Moura

(Porto, 1942)

 

As palavras estão presas ao real. Não há praticamente nenhuma poesia, nenhuma literatura, que sobreviva se não houver uma especial coerência entre elas e a realidade. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a todas as outras artes, sendo certo que, na música, estas coisas se põem em termos qualitativamente diferentes (provavelmente na música, e no Ocidente, o sistema tonal tende a exercer a mesma força de atracção que o real). Estas coisas para mim põem-se em termos de uma extrema simplicidade, sem altos voos filosóficos, num plano prático e corrente dos significados. É claro que a espessura do real é múltipla: tanto inclui o onírico como o pensamento abstracto. Eppure… é sempre o real. Hoje, assim como nas artes o fim do século XX parece ter ficado assinalado por um “neo-figurativismo” (outra vez o real…), também na poesia se regressa ao real (subjectivo e objectivo) em muitas modalidades. O escritor é um ser humano que utiliza as palavras com um certo nível de exigência qualitativa. Capturar o real, mesmo que seja para fazê-lo “inflectir”, é um dos seus objectivos. É provável que o cinema e a fotografia tenham contribuído para acentuar essa necessidade. Não penso que se trate de um vício, mas de uma condição inelutável. A literatura é uma forma de criação artística pela palavra, mesmo quando tenta convocar outras áreas (veja-se, por exemplo, a ekphrasis). A sua relação com o real decorre naturalmente desta condição verbal.

 

(em entrevista a João Luís Barreto Guimarães)

 

 

Ilustrações de Adão Cruz

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