Completamos, com este conto de Ana Borges, a publicação dos primeiros dez blogocontos. “Encontrando o caminho” tem 1883 caracteres. Vamos ler com atenção:
As pálpebras fechavam-se, o sono pesava. Horas matinais, bem mais cedo do habitual. O som do comboio nos carris embalava-a. Porque raio aceitara o convite para ir tão longe partilhar ideias? Agora, não havia volta a dar. E nem sabia do que ao certo falar…
Foi lembrando outras viagens em situações bem diferentes. Até Paris, há mais de trinta anos, comboios ainda com poucas comodidades. O fim nunca mais chegava, as pessoas enervavam-se, as crianças choravam… A não repetir. A Madrid, durante a noite, em que encontrara um exemplar de “O Perfume” em espanhol e voltara a ler a obra nessa língua. Outras pelo país, por destinos diversos e com objectivos diferentes.
Certa vez, de Portimão para Lisboa. Usavam-se umas socas de madeira e ela comprara uma cestinha de palha de que fizera carteira. Não sei qual a imagem que passava mas o certo é que um homem do banco da frente tentara meter conversa e perguntara se ela “ia servir”. O espanto fora grande mas conseguira ir na onda e dizer que sim.
Queria pensar no que iria falar, mas o pensamento fugia para as viagens, especificamente para umas a determinado destino e com determinado objectivo.
E as pálpebras fechavam-se, o sono pesava.
O local e as pessoas voltavam. Não eram lembranças agradáveis. Correspondiam a um período difícil da sua vida. Que não se repetiria. Pelas mudanças na sua vida, pelas mudanças sociais da vida do país.
Quanto a organizar as palavras que iria proferir, elas não chegavam. Voltavam sempre as mesmas viagens, as mesmas pessoas, os sentimentos ambivalentes, contraditórios, as raivas sentidas, a resignação.
Os viajantes iam saindo nas estações. Conseguira criar uma bolha só para ela, colocando tampões nos ouvidos. Detestava ouvir as conversas ao telemóvel, as mais disparatadas, nos tons mais incríveis, sem noção nenhuma da privacidade que careciam.
O comboio avançava comendo os quilómetros. O tempo passava.
Revivia situações, divagava sobre como poderia ter sido diferente, como a sua vida teria tomado outro rumo se, em determinada altura tivesse feito outra escolha.
E, de repente, percebeu porque tudo aquilo não lhe saia da cabeça. Desatou-se a rir. E já sabia do que iria falar, o que queria partilhar.
