Diário de bordo de 10 de Dezembro de 2011

 

 

Temo-lo dito com frequência: o partido que actualmente ocupa o poder é, no regime democrático, o prolongamento da União Nacional e da Acção Nacional Popular. Os fundadores do PPD, eram gente do regime salazarista-caetanista, com divergências relativamente aos arquétipos montados pelo homem de Santa Comba, propugnando o advento de uma democracia formal – dispostos a mudar tudo, pois sabiam melhor que as múmias do regime que a ortodoxia salazarista e fascistóide tudo deitaria a perder. Portanto dispostos a mudar tudo para que tudo o que era importante para eles se mantivesse inalterável. Era gente com alguma audácia, mais desempoeirada, mas culturalmente medíocre.

 

Francisco Sá-Carneiro não fugia a essa regra de mediocridade intelectual – não deixou uma peça de  oratória que lhe permita sequer aproximar-se dos calcanhares dos grandes demagogos do século XIX e dos próceres da República. Tendo morrido da forma trágica que se sabe, logo foi promovido a grande figura de um partido que nem foi capaz de escolher um nome adequado – Social-democratas? Naquela casa ninguém (nem Pacheco Pereira) foi capaz de explicar que a social-democracia nada tem a ver com eles – nem com os que vieram da União Nacional, nem com as sucessivas levas de carreiristas que desde há quase quatro décadas alternam no poder com os carreiristas do PS.´Porém, como dizia Shakespeare, o que importa o nome da rosa? Com esta ou outra designação, o PSD seria sempre o que é – uma máquina de produzir gente sem escrúpulos e sem muitas teorias a empatar o negócio. Vítor Gaspar refere uma figura tutelar – Milton Friedman. Escolheu bem.

 

Voltando à figura de proa da nave pepedista – com toda a veneração que dizem ter pela memória de Sá-Carneiro, pondo o seu nome a avenidas que tinham nomes respeitáveis, em Lisboa mudando o nome à Praça do Areeiro e crismando no Porto a designação do Aeroporto internacional de Pedras Rubras, podiam ter hesitado em violar o Decreto-lei n.º496/80 de 20 Outubro de 1980, assinado pelo primeiro-ministro Francisco Sá-Carneiro e segundo o qual no seu Artigo 17º – OS SUBSÍDIOS DE NATAL E DE FÉRIAS SÃO INALIENÁVEIS E IMPENHORÁVEIS.

 

Resolvendo o problema de uma crise que a inépcia dos governos alternantes criou da forma mais simplista – fazendo quem trabalha ou trabalhou durante toda a vida pagar uma dívida que, em grande parte, foi parar às contas privadas de gente que passou pelo Governo e das suas clientelas políticas. Não teria sido mais justo começar por congelar essas contas e investigar como foram feitas as fortunas de políticos? Mesmo que não pagasse a dívida e todos tivéssemos de fazer sacrifícios, havia pelo menos um exemplo que vinha de cima.

 

O PS, com o seu secretário-geral a debitar vulgaridades, prepara-se para na próxima legislatura substituir um PSD  que, com as medidas terroristas que está a assumir, dificilmente cumprirá o mandato. São Bento é uma verdadeira casa de alterne.

 

No pior sentido.

 

 

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