Um café na Internet
Em Pedra Furada, junto à igreja, enquanto enchemos as garrafas, converso com três alemães e uma brasileira. Este grupo seguiu o conselho de um roteiro alemão e apanhou o metro até perto de S. Pedro de Rates. Talvez na próxima passagem por aqui – se houver mais alguma – eu faça o mesmo, poupando-me ao demorado pesadelo do Porto a Vilarinho, à inevitável travessia da auto-estrada ou de Moreira da Maia: palmilhar esta feia, longa e perigosa etapa uma vez na vida é já excessivo; poupando-me também à noite no albergue de Vilarinho: as picadas que trago no braço, pescoço e tornozelos não são de melgas, não… Todavia o atalho que os alemães e a brasileira seguiram priva o caminhante de doze quilómetros de felicidade, isto é, do percurso entre Vilarinho e S. Pedro de Rates.
É para atravessar pedaços de Portugal como este que aguentamos os outros, os quais nos interessam pela curiosidade de descobrirmos como são, mas repercutem, enquanto os atravessamos, apenas violência e vulgaridade. Numa caminhada os quilómetros não têm todos o mesmo comprimento: achei os primeiros vinte de ontem infinitamente longos e os primeiros vinte de hoje espantosamente curtos. Benefício da segunda passagem pelos mesmos sítios: eu ontem, enquanto progredia, em passo de formiga, pelos subúrbios do Porto, enquanto atravessava a zona industrial da Maia e, mais adiante, enquanto tentava sobreviver à N306, pensava na aldeia de Arcos. O ar, a luz, o silêncio, a ponte, o espigueiro, as casas, as pedras, os muros, as vinhas, as roseiras… No ano passado houve momentos em que a transparência do ar chegava a ser comovente. Este ano passa-se o mesmo: a presença do que me rodeia é tão intensa que se torna surreal.
Alterno as ultrapassagens com os suecos durante os vinte e oito quilómetros desta etapa. Conversamos um pouco, depois eu sigo ou fico para trás: gosto de caminhar sozinha. Em contrapartida a minha presença reconforta-os, pois sentem-se inseguros neste exótico e violento país; buscam algo, assalta-os uma dúvida, surge uma dificuldade: sou um roteiro leve e bem informado. No que me toca, simpatizei com eles desde o início, mais após a peripécia com as alemãs, por conseguinte conduzo-os aos bombeiros de Barcelinhos, que este ano acolhem os peregrinos de Santiago.

