4 – A memória poética como patrimônio de sofrimento – por Roberto Vecchi

(Continuação)

Nesta reconstrução, uma extraordinária contribuição crítica, de modo oblíquo, inesperado, mas não menos incisivo, vem de uma obra fundacional da poesia da guerra colonial, uma obra aliás não só poética mas que, no latamente poético, proporciona elementos reflexivos bastante importantes: se trata do volume Poesias e cartas de José Bação Leal que, como se sabe, foi publicado pelo pai do poeta numa edição de escassa tiragem em 1966 e depois reeditado – e censurada- em 1971.

 

Há vários traços desta obra que aqui se evidenciam. O primeiro é que ela se caracteriza como uma não obra, no sentido que a sua existência se deve a uma resistência à damnatio memoriae decretada pelo seu “autor”, por parte dos editores familiares –autores por sua vez?- do volume. A poesia de Bação Leal se afirma por uma insuficiência, uma debilidade. Mais propriamente uma falta, um não ser para ser. Uma poética do anticânone que porém se inscreve num seu cânone íntimo que o poeta declina nas suas cartas como epígrafes (Pessoa, Ramos Rosa, Herberto Hélder) ou citações ou referências (“Quando Herberto Hélder, Maria Teresa Horta (só poesia) Ruy Belo, A. Ramos Rosa publicarem qualquer coisa, escusas de me avisar, diz logo a minha irmã que mande” (Leal 1971: 108).

 

Há um segundo traço que decorre do primeiro: de modo não metafórico é uma obra póstuma mas que, ao mesmo tempo contribui para pensar aquela que chamei a condição póstuma do autor da guerra colonial. Como Margarida Ribeiro mostra cabalmente, a literatura da guerra colonial, diria particularmente a poesia, é uma literatura figuralmente de epitáfios sobretudo pela função cultural que o epitáfio desempenha, enquanto inscrição tumular incoincidente, que surge afastada do túmulo, mas que simboliza a memória monumentalizada na ausência dos despojos que a motivam. Uma literatura, a da guerra colonial, na esteira dessa tradição tumular, que desde logo se configura como póstuma – literalmente – em relação aos fatos que relata. Mas póstumo aqui tem uma significação de eco mais amplo, que decorre da relação cultural e cultual que autores das representações da guerra instauram com o horizonte da morte, e com o mundo que a ela se conecta. Como já tive modo de observar, a partir de algumas considerações de semântica histórica sobre o termo, póstumo possui uma ressonância mais ampla do seu simples significado etimológico que como se sabe (e no caso português uma das mais complexas figuras históricas, a de D. Sebastião, elucida plenamente a acepção) alude ao caso do filho nascido depois da morte do pai. De fato, se com Isidoro de Sevilha assume o termo no sentido de post humatus, algo que surge depois do enterro, é em época medieval que começa a circular o verbo posthumare, no sentido de se encontrar depois, sobreviver (Ferroni 1996: 12-15). A partir desta base reflexiva portanto, uma semântica de póstumo desta amplitude acaba afetando a condição póstuma das escritas da guerra colonial (Vecchi 2006: 303-304) .

 

Póstumo, de fato, parece apontar para um suplemento, um depois, um além em que ao mesmo tempo algo sobrevive, uma continuidade no fragmentário, uma não coincidência de algo de qualquer modo inconcluso, de não acabado. Por isso no póstumo tem um resto que persiste culturalmente “vivo-morto” na dimensão posterior, no depois. A póstuma então é a condição por excelência testemunhal (supérstite) no sentido de quem conecta duas dimensões, tendo lugar num depois e pressupondo sempre um antes (Agamben, 1998: 15 e 138-140). A testemunha habita sempre, de facto, uma condição póstuma. Assim como o epitáfio é necessariamente sempre póstumo.

 

Pensando em José Bação Leal podemos extrapolar algumas poderosas imagens poéticas do livro acima mencionado, em forma de epitáfios:

 

Não posso, não quero, Recuso! As crianças magríssimas de estômago proeminente. Lembram espectros dos campos de concentração Nacional-Socialistas. São como punhais na carne da memória dos homens (Leal 1971: 85)

 

Ainda o mesmo esqueleto a fingir de esperança (Ibid: 116) Semeie-se o que a terra merece… sirva de adubo o esqueleto das armas. Caso venhas, espera de África insectos e raiva (Ibid: 122)

 

No caso de não emendares Março (perdoa a insistência), traz, faz por trazer um passado sólido, jardins na memória , em suma, onde te possas refugiar nas tardes de domingo. Senão o tempo que por cá passares transformar-se-á num pequeno punhal que te redigirá no corpo, dolorosos textos, insinuando estes, tudo o que devias ter feito e não fizeste, não foste capaz de fazer. Acredita-me, acredita-me. (Ibid: 125)

 

 Sangram (por agora) desordenatamente no olhar humaníssimo da negra gente. Gosto das acácias de Dezembro, deste verão póstumo a rolar na montanha – Sim: tentarei o canto mesmo de gatas: Zé. (Ibid: 151)

 

 

Se a voz da poesia é por sua vez uma voz póstuma, sem corpo, ou que se pode encarnar noutros corpos, noutros sujeitos, a poesia assim se expõe, se excetua, como lugar ou experiência de dessubjetivação. Aliás se há algo que ela testemunha, mais do que qualquer “real” impossível ou interdito é mesmo um esvaziamento do sujeito poético. Como capta Margarida Ribeiro no texto de referência (Uma história de regressos) sobre Bação Leal ao apresentar os fragmentos em prosa poética como “a primeira prova de ausência”, de “desterritorialização geográfico e humano”, “um processo de desagregação do ser até ao desejo de não ser” (Ribeiro 2004: 206).

 

Isso induz a repensar o que é a poesia. No sentido que propositadamente separei alguns fragmentos que chamei de “imagens poéticas” não da seleção de poemas que introduz o volume, mas das cartas que minam a persuasão de uma forma como garantia de um gênero, do verso como garantia de poesia. A poesia surge na prosa das cartas, com uma evidência que permeia a voz do poeta quebrada na escrita epistolar, como o introduz Urbano Tavares Rodrigues (Leal 1971: 6).

Nesta tensão entre forma e gênero, entre sujeito e linguagem, surge um aspecto não secundário do poético que reconduz a uma revisão do próprio estatuto de autor. O que chamamos de dessubjetivação do sujeito da experiência na sua projeção lírica desloca o problema da identidade autoral para o seu ter lugar, o lugar onde a voz se dá imbricando o tempo. É assim que a língua poética não será uma língua mimética, mas uma língua em potência, justamente como são as línguas mortas. Numa reconstrução conhecida, Giorgio Agamben (Categorie italiane) ao ler a poesia de Giovanni Pascoli (marcada por exemplo pelo uso do latim) aponta como a poesia fale uma língua morta, aquela língua que de acordo com a tradição (S. Agostinho) é a experiência da palavra pronunciada quando não é já só som e, no entanto, ainda não é significado, mas sim mera intenção de dizer. A poética se torna assim, nessa perspectiva, poética de uma língua morta, que marca um lugar da experiência poética que é aquele onde o poeta pode captar a língua no instante em que ela reafunda, morrendo, na voz e a voz no ponto em que reemergindo do mero som, traspassa, morre, no significado (Agamben 1996: 74). A experiência do ditado poético é reconstituída nestes termos como uma experiência de traspasse, uma experiência de morte, ao conjugar a morte da voz e a morte da língua. Há mais um aspecto a ser evidenciado: a língua morta que seria portanto a da poesia é uma língua residuária, uma língua-resto. Perdeu-se nela por inteiro a dialética entre a inovação e a conservação que é própria das línguas vivas pelo uso que se faz delas e que se dá no ponto de encruzilhada dessas duas tensões, entre anomia e norma, que é o falante estabelecendo o que pode e o que não pode ser dito (sempre em prol da compreensão). Pelo contrário na língua morta não é possível atribuir a posição de um sujeito (Agamben, 1998: 143) como existe só a dimensão da invariabilidade, da conservação. Usar a língua poética como língua morta essencialmente aponta não só para o reposicionamento do autor nela, mas de
certo modo faz com que a língua sobreviva aos sujeitos que a usaram.

 

 (Continua)

Leave a Reply