por Rui Oliveira
Numa semana particularmente exígua em manifestações culturais públicas, o que pôde escolher-se foi apenas :
1. No Sábado, 31 de Dezembro, às 17h na Igreja de São Roque há um concerto interessante (e muito provavelmente já esgotado) intitulado Te Deum em São Roque, onde o Coro Gulbenkian e a orquestra Divino Sospiro (residente habitual no CCB) sob a direcção de Jorge Matta actuarão com a colaboração de quatro 1ºˢ solistas Sandra Medeiros soprano, Terry contra-tenor, Fernando Guimarães tenor e Hugo Oliveira barítono e quatro 2 ºˢ solistas Marisa Figueirasoprano, Carolina Figueiredo contralto, Frederico Projecto tenor e Manuel Rebelo barítono.
Numa primeira parte ouvir-se-á a conhecida Cantata de Ano Novo de Johann Sebastian Bach Fall mit Danken, fallt mit Loben, a quarta parte da sua longa Oratória de Natal, BWV 248.
Na segunda metade do concerto tentar-se-á reconstituir a cerimónia da véspera de Ano Novo de 1769 onde nesta mesma Igreja, casa da Companhia de Jesus, se ouviu pela primeira vez, na presença da família real e da corte, o primeiro dos três Te Deum composto pelo principal compositor português do século XVIII, o mestre de capela João de Sousa Carvalho (1745-1798).
O concerto, além de ter as duas fanfarras originais da época e o templo decorado festivamente com os “guiões”(panos bordados a ouro) das charamelas, será transmitido em directo pela RTP.
2. No Domingo, 1 de Janeiro, às 17h é a vez do Centro Cultural de Belém efectuar no seu Grande Auditório o Concerto de Ano Novo com a Orquestra Metropolitana de Lisboa sob a direcção de Cesário Costa a que chamou Música com sabor a folia ! , onde se pretende começar “mais um ano, marcando com o pé direito o pulsar das valsas e os ritmos frenéticos das polcas”. Para tal ir-se-á uma vez mais ao encontro do inesgotável filão da música com que Johann Strauss encantou os salões de toda a Europa ao longo do século XIX.
Ouvir-se-ão assim :
Valsa Rosas do Sul, op. 388
Polca rápida, Expresso, op. 311
Polca francesa, Voando, op. 230
Valsa Só se vive uma vez, op. 167
Polca francesa, Postillon d’amour, op. 317
Polca Viva a Hungria, op. 332
Valsa Acelerações, op. 234
Valsa Danúbio azul, op. 314
Polca francesa, Violeta, op. 404
Valsa Bombons de Viena, op. 307
Polca-Furioso, op. 260
Ainda nesse Domingo, 1 de Janeiro, pelas 18h, o Teatro Nacional de São Carlos organiza igualmente um Concerto de Ano Novo para que convidou Elisabete Matos, numa colaboração muito especial com o palco lírico português onde cantou, em Outubro último, em Don Carlo o papel de Elisabetta. Neste concerto destacam-se também o Coro do Teatro Nacional de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direcção do maestro catalão Miquel Ortega.
O programa, pensado para “proporcionar as melhores entradas no ano de 2012”, inclui árias e aberturas das óperas mais conhecidas do grande público, zarzuelas e operetas, destacando-se, entre outras, Lady Macbeth, de Verdi, Turandot, de Puccini, La Tempranica, de Geronimo Giménez, La Gran Vía, de Federico Chueca, Der Obersteiger, de Carl Zeller, ou Giuditta de Franz Lehár.
3. De Terça a Quinta, ou seja, de 27 a 29 de Dezembro, no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal, sempre às 18h30, acontece O Fim da Crise – Desconferências do São Luiz, comissariadas por Nuno Artur Silva.
Anunciam-se assim :
“Nas conferências, confere-se. Nas desconferências, por maioria de razão, desconfere-se. É precisamente isso que nos propomos fazer. Neste crepúsculo de todas as crises (as de 2011, porque as de 2012 estarão já aí a romper), interessa-nos desmontar, produzir ironia a sério, enquanto etapa primeira de um possível processo de conhecimento. Interessa-nos fazer explodir, em sentidos inesperados, os lugares comuns da política, do amor, do dinheiro. Da cidadania, do desejo, dos estatutos e dos papéis sociais. Do sentido de comunidade, do egoísmo, das artes e dos seus travestimentos. De tudo o que nos vier à cabeça e nos sirva para achar que escavacamos o passado da crise e que algures há um futuro. A conferir, talvez, um destes dias”.
No primeiro dia (27,Terça) o tema é O Dinheiro. Porque amamos odiar o dinheiro, se não podemos – nem queremos – viver sem ele? Vamos conversar à volta do paradoxo de haver dinheiro a menos nas nossas carteiras e dinheiro a mais nas nossas conversas. Ou não?
(será exibição de um vídeo em que várias pessoas falam da sua relação com o dinheiro)
Coordena Pedro Santos Guerreiro (dir. Jornal de Negócios) e são convidados José Maria Ricciardi (Presidente do BES Investimento) e António Pinto Leite (Presidente da Associação Cristã de Empresários e Gestores).
No segundo dia (28,Quarta) tratar-se-á O Amor. O que mudou e está a mudar no nosso entendimento (ou desentendimento) do que é o amor? E como é que o amor sobrevive à banalização das suas canções e ficções nos media contemporâneos?.
Coordena Pedro Mexia (poeta e crítico) e estarão presentes Aldina Duarte (fadista), João Lopes (crítico de cinema), Patrícia Pascoal (sexóloga) e Sónia Balacó (actriz).
No último dia (29,Quinta) aborda-se A Política. Numa época dominada pelos discursos e práticas economicistas e financeiras, é este o momento para o regresso dos políticos e da Política? Vamos conversar sobre a relação da política com a crise no actual contexto europeu.
Coorden Daniel Oliveira (comentador) e são convidados José Medeiros Ferreira (professor e comentador político), Viriato Soromenho Marques (professor e comentador político) e Ricardo Araújo Pereira (humorista).
4. Na Quinta, 29 de Dezembro o gospel estará presente em Lisboa, não começasse ele a tornar-se tão “natalício” como as valsas de Strauss (!). Assim às 21h30 o Alabama Gospel Choir sobe às 21h30 ao palco do Teatro Tivoli para nos cantar o seu repertório que vai do gospel ao funk e aos blues.
Formado em 1946, é um grupo vocal exclusivo de Alabama (onde têm desde 2003 a sua estrela de bronze no passeio da fama de Alabama Music Hall) com títulos tão conhecidos como “God is Moving”,” I Am the Lord”, ”Your God o Thank you” e está ligado historicamente ao coro Aeolians, uma instituição fundada em 1896 pertencente aos Black Seven-Day Adventist. O Alabama Gospel Choir é constituído por 25 artistas que conseguem reproduzir todo o percurso do gospel num registo único até ás raízes desta música e conta com importantes figuras como Johnny Sanders e Francine Murphy (nomeados para os prémios Grammy e que acompanharão a digressão a Lisboa), entre outros importantes artistas internacionais como Merian Terry, E. Travis Jones, Dr. Kevin e a directora do coro Deana Butler.
Na mesma noite, no Teatro do Bairro (ao Bairro Alto), às 23h30, actua o Shout, o primeiro grupo de gospel português, composto por doze cantores (Yura Silva, Cátia Ribeiro, Patrícia Antunes, Filipa Lourenço sopranos, Lucy de Jesus, Patrícia Silveira, Paula Pradas, Soraia Silva contraltos, Jorge Dias e Carlos Ançã barítonos e Mário Marta e Ricardo Quintas tenores), acompanhados por três músicos e que acaba de editar o seu CD de estreia, gravado nos palcos do CCB.
Entretanto o Teatro Tivoli abrirá o ano a 1 de Janeiro (Domingo), às 18h, com o ballet Quebra-nozes pelo Ballet do Teatro Nacional Russo.
Veremos e ouviremos assim, de novo, talvez o bailado mais célebre de Tchaikovsky, estreado em Dezembro de 1892 no lendário teatro Mariinskii de São Petersburgo, sob a coreografia original de Lev Ivanov e o libreto de Marius Petipa. A história − uma fábula que fala da saudade perpétua pela infância perdida e do contraste entre a realidade do mundo dos adultos e a do mundo dos sonhos das crianças − inspira-se no célebre conto de Hoffmann “O quebra-nozes e o rei dos ratos” publicado em 1819, apesar de o argumento que daria vida, anos mais tarde, ao Ballet de Tchaikovsky ter derivado duma adaptação que Alexandre Dumas fez do texto.
5. Acabam de estrear 2 filmes, entre muitos de pouca valia, cuja valorização pelos críticos lidos é contrastante o que os torna de imediato motivo de interesse.
O Miudo da Bicicleta (Le Gamin au Velo), 2011 é um filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne, interpretado por Cécile De France, Egon Di Mateo, Fabrizio Rongione e Jérémie Renier, sendo a história de Cyril, um rapaz de quase 12 anos, que tem um único plano: encontrar o pai, que o deixou temporariamente num orfanato. Entretanto, por acaso, conhece Samantha, uma cabeleireira que aceita acolhê-lo aos fins-de-semana …
Para uns (F.F. in Actual) é “um casamento do documentário (com) a ficção com uma seriedade sem limites”, “histórias de Abraão e Isaac, para voltarmos aos pais, aos filhos e – admitamos – a um cinema que professa com subtileza o seu cristianismo … até que o perdão intolerável … se possa tornar um perdão possível”. Para outros (J.M. in Ípsilon) “… um caso de fácil adesão mas também menos memorável do que a Rosetta/Émilie Dequenne do homónimo e inacreditável filme dos Dardenne”.
A ver, portanto.
A Toupeira (Tinker Tailor Soldier Spy), 2011 é um thriller feito por Tomas Alfredson, com um argumento de Peter Straughan sobre o texto do romance de John Le Carré, interpretado por Colin Firth, Gary Oldman, John Hurt, Tom Hardy. Narra, obviamente, as peripécias do agente secreto George Smiley que é obrigado, durante a Guerra Fria,a sair da reforma para investigar a possibilidade de haver uma “toupeira” – um agente soviético infiltrado no topo da hierarquia dos serviços secretos britânicos.
Aqui, para alguns (J.M. in Ípsilon) “a verdadeira importância de “A Toupeira” está no modo como explica porque é que já não se fazem filmes como antigamente ao mesmo tempo, desmontando o lugar-comum, consegue fazer um … um filme profundamente moderno e extraordinariamente clássico – e não há contradição nisto.” Para outros (F.F. in Actual) “A Toupeira é um desses thrillers de espionagem recauchutados à moda antiga … (onde) jamais se sente que o cinema ambiciona estar ao nível da matriz literária. Serve-a apenas, sem a interrogar, sem a desafiar. …”
Perante tal controvérsia, não há senão que visionar a obra.
Cordas sobresselentes
A 27 de Dezembro, na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, às 18h, a pianista noruega radicada em Portugal Anne Kaasa tocará um programa que intitulou No Mundo de Debussy onde executará obras deste músico francês e de dois outros compositores colegas desse universo de Paris no início do século XX. Ouvir-se-ão deClaude Debussy Estampes,3 dos Prelúdios, Nocturne e Pour le piano, de Isaac Albéniz Ibéria (parte da suite) e de Maurice Ravel Sonatine.
A 27 e 28 de Dezembro, às 21h30, no palco do Teatro Tivoli exibem-se o Coro, Ballet e Orquestra do Exército Russo de São Petersburgo, integrando uma centena de artistas, que constitui uma das melhores representações do folclore e da arte vocal e coreográfica da Rússia.
O grupo é dirigido por Valery Tkachenko e com os Coros e Danças do Exército Russo chegam também a Portugal algumas das vozes de destaque da Rússia actual, como os tenores Kalashnikov, Kolenkov e Troshkin, o barítono Stepanov e o baixo Dobrovolsky.
Queiram recordar-se aqui os seus temas já “clássicos” :
A 27 de Dezembro, às 23h, no TMN ao Vivo a cabeça de cartaz o cantor holandês de reggae Ziggi Recado e o hip hopper NGA. Completam o cartaz deste evento o DJ Enigma, Joi Karyl Sound e Faya Fex Sound.
A 28 de Dezembro, às 23h59, o MusicBox recebe a Orquestra Tocá Rufar, talvez a maior orquestra de percussão tradicional portuguesa, fruto de um investimento de doze anos na formação musical gratuita de crianças, jovens e adultos e que é, hoje, embaixadora de um projecto moderno, criativo e possuidor de uma sólida identidade cultural.
Pode aqui ver-se o seu vídeo promocional :
http://www.youtube.com/watch?v=7k0Cm2eI5XE
Antes, pelas 23h, o grupo de música de raiz etnográfica e tradicional de Angola Os Lindú Mona, mas também de jazz, reggae, entre outras, apresentam o seu último CD «Rosa Afra».
Às 23h15, o cantor guineense Guto Pires introduz o seu novo trabalho “Um Novo Pôr do Sol”, ambos dentro do Festival das Comunidades Lusófonas Musidanças 2011.
Os dias 28 e 29 de Dezembro vão ver reunidos de novo no palco do Casino de Lisboa os cantores Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e Carlos Mendes num espectáculo que intitularam Só Nós Três, em reprodução daquele havido em 21 de Fevereiro passado e que os mais saudosos poderão relembrar aqui : http://www.youtube.com/watch?v=5QA7Sb6wxg0 .
No dia 29 de Dezembro, no Clube Estefânia, o Coral Públia Hortênsia de Castro (PHC), constituído em Elvas há quase 25 anos, propõe-nos uma viagem sobre o imaginário do poeta espanhol Federico García Lorca. “Lorcas” é o título do espectáculo do coro, dirigido pelo maestro Paulo Brandão, com encenação de José Carlos Garcia, que estarão acompanhados pelo Zyryab Quartet e pela meio-soprano Inês Madeira, no papel de La Argentinita, cantora que ainda gravou com Lorca e é definido pelo próprio grupo coral como “uma viagem guiada, descontínua, em que o pranto das guitarras e o canto das vozes criam várias situações e quadros, transportando o público para o mundo onírico e real do autor espanhol“.
Ainda a 29 de Dezembro, de novo no MusicBox e no Festival Musidanças 2011 o hip-hopper Samdavies actua às 22h30, seguido às 23h30 pelos Urbanvibsz, um grupo do Barreiro praticante de reggae.
Já a 30 de Dezembro e ainda no MusicBox, o programa inclui às 23h30 o Projecto Rurouni que apresenta uma fusão entre o lado étnico, psicadélico e experimental do som, uma mistura do Sitar, Tampura, Didje, Trompa Tibetana, Gongo e pequenas percussões.
Às 00h15 é o projecto Atma, “a viagem dedilhada de um cantador de histórias que partiu aos primeiros acordes da madrugada… é o longínquo do deserto num olhar que foi e voltou, para descobrir por fim que não há como a guitarra portuguesa para cantar o fado do viajante.”
À 1h00 Emmy Curl, transmontana “construtora de matéria onírica, apreciadora de mares e nuvens de espessura violeta”, vem apresentar um pouco da sua vasta pesquisa melódica.
Às 2h00 encerra João Gomes, bem conhecido dos consumidores do funk e soul nacional.
Também a 30 de Dezembro, no Auditório do Museu do Oriente, às 21h30, The Art&Cult Orchestra da Figueira da Foz (dir. Cristiano Silva) apresenta o resultado do trabalho de 2 anos duma orquestra constituída por jovens músicos oriundos de várias escolas de norte a sul de Portugal e orientada por professores de larga experiência musical e académica. No programa desta orquestra de raiz portuguesa constam arranjos de peças desde o clássico ao moderno, rock e música ligeira.
Lembramos que neste 30 de Dezembro cessam no Teatro A Comuna as representações às 21h30 da peça Guarda-Sopros de Sofia Brito, com encenação de João Ricardo e interpretação de Diogo Fernandes e José Graça, uma iniciativa do grupo “Acho-te uma Graça”.
A expressão final do jazz deste ano ocorre no Sábado, 31 de Dezembro, no Ondajazz onde a passagem do ano é acompanhada pelo projecto Ogre que cruza o jazz com a música electrónica, citando ainda outros sons. O grupo é composto por: Maria João voz, João Farinha fender rhodes e electrónica, Júlio Resende piano, Joel Silva bateria e André Nascimento electrónica.
A noite de 31 de Dezembro de transição para 2012 é também celebrada no Casino de Lisboa com a actuação no palco central do Arena Lounge da banda portuguesa (nascida em Alcobaça em 1994) The Gift, que aí regressam ao fim de quatro anos. O concerto (de entrada livre) tem como atractivo suplementar a divulgação de Explode, álbum de regresso da banda após sete anos, cuja sonoridade, segundo Nuno Gonçalves (seu fundador), “é mais eléctrica e crua, com menos orquestrações e em registo épico”.
Caros leitores : É tudo por esta semana e … até para o ano. Boas passagens !





