Os últimos acontecimentos no nosso país (emigração preconizada pelo governo, venda da participação na EDP em leilão, ou quase, o agravamento da situação nos transportes públicos) demonstram sem dúvida que temos um mau governo. Será justo dizer o governo chefiado por Passos Coelho é realmente mau, mas que os anteriores também foram muito fracos. É certo que a maioria dos problemas com que nos debatemos vem detrás (em boa parte, muito detrás), mas o actual governo não parece que os vá conseguir melhorar. Pelo contrário.
Reconhecendo estas verdades (pouca gente as negará, a não ser por interesses próprios), temos que insistir, para conseguir levar a nossa barca a águas melhores, em reflectir em como aqui chegámos. Há realmente questões fundamentais. Por exemplo, a questão do Estado. Outra, a dos mercados. O que são realmente? Não vamos aqui recorrer a definições académicas, ou livrescas, como lhes queiram chamar. Limitemo-nos a reconhecer que são entidades, cada uma a seu modo, com um grande peso nas nossas vidas. E nós tratamos estas entidades como se fossem impessoais. O que é natural, mas tem consequências. A principal será a insuficiente responsabilização de quem as dirige, pelos erros e abusos que comete. Dito desta maneira, parece que estamos a invocar uma norma moral de pouco alcance prático. Na realidade, estamos a referir um problema essencial, mas de difícil resolução. Os problemas da democracia passam por aqui.
Os problemas do Estado, melhor dito, os problemas das populações que o Estado não resolve, e os que derivam da própria acção do Estado, têm responsáveis. É comum os cidadãos menos informados e mais precipitados responsabilizarem em bloco os funcionários públicos, acusando-os de laxismo, ignorância, indiferença, etc. Por vezes até será verdade, mas na generalidade os problemas resultam da deficiente orientação, e não raras vezes de o interesse público ser preterido a favor de interesses privados. Conhecer as orientações e as possíveis alternativas é essencial. Para isso são essenciais os movimentos de cidadania. Desde questões muito visíveis e faladas (ainda não tanto quanto seria necessário), como está a ser o caso da auditoria á dívida pública, ou o das portagens, até outras com menos visíveis, mas igualmente muito importantes, como será o caso das comissões de utentes, dos centros de saúde, das linhas férreas de grande movimento, etc., os movimentos de cidadãos, incluindo os directamente interessados e não só, possibilitarão o conhecimento dos responsáveis de topo e das hierarquias intermédias, e contestar as suas acções quando for caso disso. A figura da reclamação individual é importante mas não suficiente.
O caso dos mercados é diferente, e talvez ainda mais complexo. Actualmente, estamos na fase de grande concentração de capital e de globalização, o que faz com os meios financeiros estão a ser dominados por um número reduzido de entidades, mas estas estão espalhadas por várias partes do mundo. A imposição política das privatizações, que é mais forte nos países em crise, com menos capacidade de enfrentar as recessões cíclicas, tem por detrás interesses concretos, mesmo quando as entidades que dão a cara são públicas. Veja-se o caso da EDP. Com a entrada da China Three Gorges no seu capital ficou a ser controlada por entidades chinesas, norueguesas, argelinas, espanholas, do Qatar, Abu Dhabi, e até portuguesas (ver Público de sexta-feira passada, dia 23). Para os consumidores portugueses poderem contestar os aumentos de preço que vão vir aí de um modo minimamente consistente precisam de um esforço muito grande. Até porque o Estado que nos representa (?) não parece estar muito virado para aí.

