DIA MUNDIAL DE COISA NENHUMA – por José Goulão

Ano após ano o ritual repete-se no primeiro dia de Janeiro: celebra-se aquilo a que chamam o “Dia Mundial da Paz”. É uma coisa bonita, vêm dirigentes dizer que a paz é possível, fala-se muito da esperança de entendimento entre os homens, do alto da sua janela nos aposentos de S. Pedro o Papa de serviço repete, mais palavra menos palavra, o que os seus antecessores já pregaram, garante que a fé e a boa vontade resolverão os conflitos e quando o fim do dia chega todos deveríamos estar confortados com tantos e tão importantes votos e restabelecidos por uma confiança renovada.

 

Então porque não estamos?

 

Porque sabemos, com a experiência do tempo de vida que cada um de nós vai somando, que nem no Dia Mundial da Paz os senhores da guerra interromperam os seus projectos assassinos e que amanhã, segundo dia do ano, tudo vai continuar na mesma, ou pior, e assim sucessivamente.

 

O Dia Mundial da Paz é um dia de coisa nenhuma, é um exercício burocrático que continua a ser cumprido e no qual quanto mais elevadas são as responsabilidades de quem promove as comemorações e profere as piedosas sentenças maior é o índice de hipocrisia, mais grosseira e consciente é a mentira.

 

A paz é possível? Talvez, em teoria certamente. Porém, por muito que dela nos falem sabemos que não é dando força às tendências que hoje – e de há muito – são doutrina no mundo que lá chegaremos. Não é uma questão de falta de esperança, de ausência de fé nas capacidades do homem, mas sim de realismo puro e duro.

 

Quando em 1 de Janeiro do ano passado se celebrou o Dia Mundial da Paz falava-se das guerra do Afeganistão e do Iraque, mantinham-se as situações de opressão e ocupação sobre os povos da Palestina e do Sahara Ocidental – que também são expressões de guerra – o Médio Oriente começava a dar sinais daquilo a que se chama “Primavera” e que da benigna estação do ano pouco tem hoje, o Corno de África estava em chamas, vagas de milhões e milhões de refugiados erravam pelo mundo devido à guerras tradicionais e novas formas de violência como são as catástrofes ambientais. E, sem bem se lembram, sem pretender ser exaustivo, todos os dias se faziam previsões sobre a iminência de um ataque militar estrangeiro contra o Irão.

 

Não é preciso entrar em muitos pormenores nem fazer grandes exercícios de pesquisa para se estabelecer uma comparação com o quadro que hoje existe, passados 365 dias. Talvez valha apenas acentuar, para que não haja equívocos, que a guerra do Iraque foi dada como extinta mas deixou o país à beira da guerra civil; que o assassínio de Bin Laden não resolveu a guerra do Afeganistão nem o problema do terrorismo; que a guerra para fazer a mudança de regime na Líbia deixou o país mergulhado na instabilidade e entregue ao extremismo religioso com tonalidades de Al-Qaida; que o incêndio provocado na Síria pelo confronto entre o regime e a manipulação do movimento popular feita pela conspiração externa ameaça ainda mais todo o Médio Oriente; enfim, que o pouco que mudou na polémica em relação ao Irão é o agravamento das ameaças de guerra.

 

E até numa frente de hostilidade mais polida e alcatifada, versão de guerra fria para o século XXI, houve novos sinais, negativos, claro. Perante a insistência da Administração Obama e do Pentágono em instalar modernos equipamentos militares, ditos “defensivos”, em países do antigo Tratado de Varsóvia – Polónia, Roménia e República Checa – a Rússia anunciou que poderá responder no mesmo estilo na sua fronteira europeia avançada, podendo ainda declarar a renúncia ao tratado de liquidação de armas nucleares.

 

Espalhem agora algumas palavras piedosas repetidas em tom de ladainha sobre estes cenários de tragédia que fazem correr milhões de litros de sangue humano inocente, ano após ano, e eis o Dia Mundial da Paz.

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