Um café na Internet
Sento-me no terraço a conversar com os espanhóis. Os polícias contam as violências às quais a profissão os expõe, os insultos, as agressões, o risco, a dupla responsabilidade, impôr a ordem por obra e graça do espírito santo, em bairros onde nem os bombeiros entram, a inutilidade do trabalho, quando conseguem realizá-lo, pois os delinquentes são, tantas vezes, com tanto esforço, presos, mas logo postos em liberdade, o politicamente correcto de uma sociedade em que, para não se passar por adepto da extrema direita, se vai chamando cor-de-rosa ao que é nitidamente preto; a rádio, os jornais, a televisão, até por vezes a escola, são grandes produtores e distribuidores desta língua de pau. Não sei porquê – ou talvez saiba – tudo isto me recorda a profissão de professora: as contradições, os desequilíbrios, as desumanidades, as monstruosidades passam pela escola e vão desaguar no posto de polícia. Um dos meus interlocutores é um jovem da classe média, tem quase trinta anos e um diploma universitário porém, com o salário que ganha arriscando cada dia a vida, é-lhe impossível comprar um apartamento a crédito.
Bebo leite com cacau e como o resto do que comprei em Valença. Chega um casal de espanhóis que aproveita um fim-de-semana alargado, sábado, domingo, segunda, terça, para caminhar de Mós a Santiago de Compostela: faltam noventa e três quilómetros.
Ao longo da tarde torna-se um jogo para os que se encontram no alberge e, em particular, para mim e os três espanhóis… Os recém-chegados dirigem-se para o duche, homens de um lado, mulheres do outro, esperamos um instante – e ouvimos o berro. Até um grupo de ciclistas portugueses, rudes, barrigudos, a cheirar a tabaco, homens escuros de barba rija: berram como os outros. (Gargalhada no dormitório.)

