2. Empregos Italianos, Chineses Ilegais
Um afluxo de imigrantes chineses está a transformar a economia italiana e a gerar um recuo cultural. Será isto o futuro da Europa?
Nina Burleigh (Bloomberg)
(Conclusão)
Em vez de culpar as grandes empresas por trabalharem com fornecedores baratos, muitos italianos voltam a cair uma explicação mais primitiva: argumentam que os chineses deliberadamente colonizaram este seu premiado sector que faz parte do património industrial nacional de Itália. A reacção tem sido tanto jurídica como política. Além das rusgas às fábricas, os eleitores de Prato, historicamente de esquerda, elegeram candidatos de centro-direita nestes últimos anos e têm apoiado até os partidos de extrema-direita, partidos anti-imigração, que aqui têm crescido. Ao mesmo tempo, as pequenas empresas familiares, a espinha dorsal da economia do pós-guerra italiano, estão a debaterem-se com dificuldades numa luta de vida ou de morte e o modo de vida e do artesanato italiano que as suportam e são a sua referência estão eles também em perigo de desaparecerem.
Do seu gabinete no 12º andar da prefeitura o perfeito Roberto Cenni, o primeiro político de centro-direita eleito em Prato, depois de 63 anos de controlo pelo Partido Comunista, expressa abertamente um certo ressentimento. Acredita que as fábricas de propriedade dos chineses tem uma injusta e desleal vantagem sobre os italianos porque nem sequer pagam impostos nem respeitam as leis do trabalho em vigor em Itália.
“Nesta crise, as nossas empresas tentam sobreviver respeitando as leis e pagando os seus impostos.”, afirma Cenni de 57 anos, dono de uma das maiores empresas têxteis da Itália, Sasch. “Eles fazem outros negócios sem nenhum respeito pelas leis. Nós corremos o risco de ter uma cidade desequilibrada, de onde se tem, por um lado, pessoas cansadas e a ficarem loucas e, por outro lado, uma comunidade que faz o que quer porque, em qualquer caso, eles não sofrem as consequências.. “
Cenni está prestes a preparar a festa de celebração local do feriado nacional, Ferragosto, que em vários sentidos esconde, o choque de culturas que agora preocupa Prato. Estava uma tarde de verão de um amarelo-dourado e a festa era marcada com um ritual de abertura com uma procissão em que se transportava um relicário segurando um cinto da Virgem Maria, do qual Cenni possui uma das três chaves necessárias. Depois, seguia-se uma festa de comes e bebes, a festa da melancia por toda a cidade de Prato. Cenni fica atento a ouvir os gaiteiros e percussionistas de Prato, um corpo de homens vestidos com túnicas de lã quente cor de flor de lis, calças azuis, sapatos castanhos e com pompons de ponta, com chapéus de bico. Eles desfilam pelas ruas estreitas até a praça principal, onde as famílias chinesas, muitas a segurarem câmaras de filmar estão a presenciar.
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Como o bispo de Prato vem à varanda desenhada por Donatello com o preto e branco do Duomo, para mostrar o cinto de Maria colocado numa peça de vidro e para receber os aplausos da multidão que está na praça, o porta-voz do prefeito Maurízio Ciampolini observa as muitas faces da China no meio da multidão. “Na festa de Ferragosto, com certeza, eles estão todos aqui”, diz ele com um ar severo. “Eles gostam de comer a melancia. Mas isto não é o suficiente! Não! A China deixa esses buracos negros em todo o mundo. “
Ciampolini e outros do meio político ou de negócios de Prato estão entre aqueles que afirmam que por detrás da explosão de imigração nesta comunidade está uma trama sinistra do governo chinês. O deputado parlamentar de Prato, Ricardo Mazzoni, um membro do partido do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o partido PDL, está a propor leis que proíbam a Western Union (WU) de fazer transferências de dinheiro entre a Itália e a China e também para se dar apoio económico especial às empresas italianas na região de Prato. ” A região de Prato foi escolhida pela intelligentsia chinesa como a porta de entrada para virem ocupar o resto da Europa”, diz Mazzoni.
“E durante 20 anos, o partido político que controlava o poder local deixou que a comunidade chinesa proliferasse como um vampiro, privando Prato do dinheiro que era enviado para fora.” Um porta-voz do consulado chinês em Florença, Huang Ruikai, ridiculariza a reivindicação. “O aumento do número de imigrantes é aqui uma manifestação do desenvolvimento contínuo da globalização”, afirma. “Prato é o famoso centro da indústria têxtil na Europa e a política local é bastante favorável aos imigrantes, por isso é muito mais fácil para estes poderem obter benefícios económicos. É assim muito fácil entender porque é que um grande número de imigrantes estrangeiros vão para Prato à procura de realizar o seu próprios “sonho europeu.”
Como em New York City, onde as vagas de chineses ilegais chegaram por terra e por mar a partir de uma única província, Fujian, os recém-chegados a Prato vêm principalmente da região de Wenzhou, pagando elevados valores para chegar à Itália, muitas vezes passando pela Suíça ou até pela Albânia. Estima-se que, dos cerca de 40 mil imigrantes chineses em Prato, pelo menos metade são ilegais, de acordo com Giorgio Silli, vereador em Prato para a imigração e para as políticas de integração. Depois de trabalhar nas fábricas clandestinas ditas do suor, também chamadas como sendo “as sweatshops”, para poder pagar aos seus contrabandistas, a ganharem 500 euros por mês, em média, os imigrantes começam a enviar dinheiro de volta para a China via Western Union ou através de subterrâneos sistemas bancários chineses conhecidos pelo nome de fei-ch’ien, à letra “dinheiro a voar.”
Silli acredita que há uma máfia chinesa por trás da transformação de sua cidade. Quando lhe perguntam se há algum chinês a trabalhar como policia ou como juiz em Prato, Silli, no entanto, exclama: “Absolutamente, não!” Mesmo que um quarto da cidade de Prato seja agora chinês, é contra a lei que os não-italianos possam estar a ocupar postos oficiais. Silli diz que apenas 112 chineses em Prato estão registados para votar nas eleições de 2014.
A vida para os chineses em Prato e na Itália em geral, não é fácil. Enquanto muitos italianos individualmente os tratem com compaixão, as autoridades italianas são claramente hostis aos imigrantes, e os militantes do partido Liga Norte, aliados com o partido de Berlusconi, têm um poder significativo no governo da cidade. As explosões de violência anti-imigrantes têm ocorrido nas maiores cidades e os recém-chegados, prisioneiros das redes criminosas da Itália, não falam italiano.
Marco Wang é seguramente uma das histórias de sucesso mais brilhantes a emergir por aqui. Sentado numa mesa no andar de cima do restaurante de que é dono, fora da Via Pistoiese, com cerca de 50 mesas com uma caixa de vidro como mostruário perto da porta mostrando diferentes pratos – perna de frango em óleo e uma miríade de legumes para os quais os italianos não têm nomes – Wang acende o seu quinto Marlboro Gold em menos de uma hora e encosta-se para trás na sua cadeira. .É hora do jantar, e o restaurante está a esgotar a sua capacidade com a maioria de jovens chineses para jantar. Aos 45 anos, Wang possui os símbolos de universais de sucesso para um homem de meia-idade: Ele alimenta-se bem, mas sem estar gordo, guia um Mercedes e é dono de um negócio próspero, tem dinheiro no banco e uma casa típica de Itália, uma casa italiana de telhado vermelho nas colinas da Toscana. A sua bela esposa chinesa é baixa e seus dois filhos adolescentes estão no litoral do Mediterrâneo com a sua equipa de futebol. Wang espera que eles venham a ser médicos, designers, mais tarde…
Wang chegou à Itália a partir de Wenzhou no início dos anos 90 e trabalhava 12 horas por dia numa fábrica de blusões de cabedal em Florença. Duas décadas depois, vive agora nos arredores de Prato e goza de todos os encantos lendários da vida italiana, como a boa comida, almoços longos, e férias de verão generosas, tudo isso ao mesmo tempo que amealha euros para enviar de volta para China. Ele representa uma visão inteiramente nova da história de sucesso dos imigrantes, ou seja, a história de um recém-chegado da China, cuja capacidade empresarial o fez subir na escala dos rendimentos acima de muitos italianos. De acordo com o jornalista de investigação Pieraccini, imigrantes tais como Wang podem enviar um milhão de euros para a China todos os anos.
“Muitos italianos estão a reclamar que nós chineses lhes estamos a tirar os seus empregos”, diz Wang. “Mas se os chineses que aqui trabalham pudessem falar publicamente, estes diriam que italianos pura e simplesmente não têm vontade de fazer nada. Quando os chineses vêem uma oportunidade de fazer negócio, estes reúnem-se e ganham vantagem muito rapidamente.”
Com a sua primeira fábrica, Wang produziu milhares de blusões de cabedal durante os meses de maior movimento e contraiu empréstimos para começar um negócio de importação e exportação com um sócio chinês e um italiano. Eles abriram uma fábrica na China para fazer roupas para designers franceses, que eram enviadas para Prato para distribuição. Wang deixou a esposa e filhos no subúrbio de Prato por três anos, enquanto ele geria a parte chinesa da empresa, em que ele nos diz que ganhava 10 milhões de dólares por ano em termos de lucros. Apesar do seu sucesso, Wang diz que “a verdade é que com esta crise agora os chineses na Itália vivem pior do que os chineses na China.” Os imigrantes mais recentes, diz ele, lutam para compreender e para se ajustarem à desordem dos reguladores de Itália. ” Quando você questiona sobre as leis, eles entregam-lhe um livro grosso que nem um calhamaço de 12 cm de espessura “, diz-nos ele. “As regras na Itália estão sempre a mudar, de tal modo que os pobres, as pessoas sem instrução, têm dificuldade em entender o que se pretende. E as pessoas italianas são tão críticas quanto os chineses, porque eles não conhecem as leis. “
Wang gostaria de reduzir o seu ritmo de trabalho e passar os seus últimos anos a trabalhar num negócio mais pequeno e tipicamente italiano: uma loja de tabaco e café. Infelizmente, como estrangeiro, ele não pode obter uma licença para vender cigarros e terá que esperar até que os seus filhos nascidos em Itália tenham idade suficiente para ele poder indicar o seu nome como proprietários. Ainda assim, ele sente-se menos ostracizado na sua nova casa. Depois de duas décadas no Bel Peasse, começou a ver as vantagens do modo tradicional de vida italiano, que às vezes parece em risco de estar a ser perdido.
Para os vizinhos italianos de Wang, a sua experiência fornece alguma medida da esperança que a Itália pode vir a mudar a forma de vida dos chineses tanto quanto o contrário. “A China é uma terra de sacrifício”, diz Wang. “As pessoas trabalham toda a vida e chegam a velhos sem nunca aproveitar a vida. Pessoalmente, acho que a Itália é linda. Eu gosto das praias, das igrejas, da sua cultura. Mas a maioria dos chineses que para aqui vêm são pobres e eles não apreciam coisas como Florença, com a sua história do Renascimento. “
Ele prossegue: “É um enorme ajustamento para que as pessoas de mais baixos rendimentos possam vir a estar entre os rendimentos mais altos. Então, nós precisamos de perceber [as dificuldades enfrentadas pelos recém-chegados]. E talvez nós chineses possamos aprender algo com eles sobre a forma de viver a vida. “
