A Europa da Cultura a ser laminada pela austeridade – I. Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.

A luta contra os défices orçamentais também atinge as políticas culturais europeias. Análise da situação no final de 2011, desde os países mais poupados aos mais devastados.


Uma imagem para entrar no centro da questão. A de um espectáculo, de Maguy Marin, uma das maiores coreógrafas contemporâneas. A peça é intitulada Ha! HA! Pode-se ver nela uma forte metáfora sobre a cultura em movimento: no palco, os bailarinos estão sentados em cadeiras, elegantes e serenos nos seus fatos pretos; e contudo, como num pesadelo caem pouco a pouco dos seus lugares, magoam-se, sem que se possa saber de onde veio o perigo nem prever o que acontece ao próximo que se segue. Depois, é o cenário que vai abaixo enquanto que explosões de risos de todos os géneros, amarelos, hilariantes, risos loucos, fazem eco com o desastre. Um trabalho radical, que interroga a sociedade do divertimento quando não fica mais do que isso. Que envolve o público – o que é que se espera de um espectáculo, que interpela o poder – a que nível coloca a cultura? Na altura da sua criação, em 2006, o espectáculo poderia fazer arrepios os programadores. Mas não a veriam eles com outros olhos, hoje?…


Do visionário Ha! HA! ao reinado do AAA, já passaram cinco anos. E a lembrança desta coreografia reapareceu quando se começou a compilar números-chave, tendências fortes e gráficos para configurar uma paisagem da cultura na Europa “em tempos de crise”. A situação não é, certamente, um desastre, mas os indicadores são preocupantes: na melhor das hipóteses, eles relatam uma degradação momentânea, na pior das hipóteses uma demolição inevitável. Trata-se de restrições orçamentais, trata-se de temporadas encurtadas, festivais bem reduzidos ao mínimo ou eliminados, artistas batidos mas também ferozmente empenhados em criar, custe o que custar, como para desafiar o tempo actual.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Minoritários

 

A Grécia, a Itália, o Reino Unido, a Espanha, Portugal e Países Baixos, a lista é ainda muito longa… E não estamos a falar sobre a Hungria, onde a cultura sofre, sob o governo do conservador Viktor Orban, de uma espécie de dupla penalização: um racionalismo económico combinado com um controle das artes em geral e do cinema em particular – por razões ideológicas, comerciais? No final, os Estados, que mostram sinais de terem os orçamentos estáveis ou levemente no sentido da alta para com e contra todos os sinais financeiros, são uma minoria: incluem, entre outros, a Suécia, a Alemanha e a França.

 

Em França, bom aluno da Europa: o Ministro da Cultura e da Comunicação colocou em relevo esta singularidade, quando apresentou o seu projecto de orçamento para o ano de 2012, no mês de Outubro – “O último orçamento antes das eleições”, teve ele o cuidado de esclarecer. Assim, Frédéric Mitterrand não deixou de confrontar a situação dos países vizinhos “que procederam a grandes cortes” com “a escolha corajosa” do Governo francês “que olha para um futuro onde a cultura tem todo o seu lugar em França, como factor de ligações sociais, de dinamismo económico, de atractividade dos nossos territórios. O Ministro tirou pois a conclusão de que “o orçamento de cultura não foi usado como uma variável de ajustamento.

 

Oficialmente, os números dão-lhe razão. O orçamento de cultura divide-se em três missões (criação, património e transmissão de conhecimentos) e goza de um envelope de aproximadamente 2,7 mil milhões de euros para 2012 – despesas com pessoal incluídos.” Este montante foi objecto de uma votação final no Parlamento em 21 de Dezembro. A perímetro constante, o orçamento de 2011 situou-se em 2,66 mil milhões de euros, indica o gabinete do Ministro. Mas as comparações são sempre difíceis de fazer. Por exemplo, entre 2010 e 2011, o envelope no sector do livro deixou o perímetro da cultura para se situar nos media e nas indústrias culturais…

 

(Continua)

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