Diário de bordo de 31 de Janeiro de 2012

 

 

Hoje o nosso diário é dedicado a uma data histórica – o 31 de Janeiro.

 

Em 31 de Janeiro de 1891, eclodiu na cidade do Porto uma tentativa de derrube da Monarquia através de

 um levantamento militar. A causa próxima desta primeira revolta armada contra uma instituição que dirigia o País há quase oito séculos, fora a deplorável questão do Mapa cor-de-rosa.

 

A cedência do Governo e do rei (D. Carlos, que ascendera ao trono pouco antes), tinha aberto uma insanável ferida no orgulho nacional. A humilhação fora particularmente sentida entre os militares.

 

 

Uma análise serena, conduziria à conclusão de que, perante a força bélica dos ingleses, para não falar no seu poder económico, fosse qual fosse o regime que vigorasse, a cedência seria inevitável. Mas o rei e o Governo não só se vergaram às exigências dos nossos «mais antigos aliados», como tinham mantido um silêncio que, de certo modo, branqueava a violência britânica. O mesmo silêncio que os sucessivos governos monárquicos, republicanos, fascistas e democráticos mantêm relativamente à usurpação de Olivença pelo estado espanhol. Cobardia política e diplomacia sabuja.

 

Os republicanos que. desde 1880, quando das comemorações do tricentenário de Camões, vinham crescendo em força política e em capacidade de organização dos seus militantes, inclusive no seio das Forças Armadas, não fizeram a tal leitura objectiva da situação. Como é natural, utilizaram a questão do ultimato como alavanca para remover a monarquia. Nos discursos dos seus oradores, campeava a demagogia, numa época em que se usava a expressão «grande demagogo» num sentido elogioso.

 

Um ano após o deplorável ultimato, as condições objectivas para uma rebelião armada pareciam estar reunidas e o directório do Partido Republicano Português, liderado nessa altura por Elias Garcia, mostrara-se favorável à preparação de um movimento insurreccional.

 

No Porto, as coisas precipitaram-se, pois, sem deixar que os preparativos se consumassem, a classe de sargentos pressionou os responsáveis locais e a revolta eclodiu extemporaneamente. Na base dessa precipitação, estava um motivo de natureza corporativa – haviam chegado ao Porto ordens de transferência que afectavam alguns oficiais e, sobretudo sargentos, o que levou a um descontentamento quase generalizado. O capitão António Amaral Leitão, foi o líder deste levantamento; outras personalidades, tais como Sampaio Bruno, João Chagas, Basílio Teles, Aurélio Pais dos Reis e o alferes Rodolfo Malheiro, estiveram também ligadas ao movimento. E deu-se a Revolta.

 

 Cerca das três e meia da madrugada de 31, o Batalhão de Caçadores 9, comandado apenas por subalternos, posicionou-se junto do Regimento de Infantaria 18, no Campo de Santo Ovídio (actual Praça da República). O coronel Meneses de Lencastre, comandante de Infantaria 18, embora comungando os princípios da rebelião, não permitiu que os efectivos saíssem, mantendo-se neutral. O alferes Rodolfo Malheiro, assumiu o comando.

Nas proximidades da Cadeia da Relação, colocou-se o Regimento de Infantaria 10 e uma companhia da Guarda Fiscal, comandados pelo tenente Coelho. Às seis horas, os cerca de 800 amotinados desceram a Rua do Almada e tomaram posições na actual Praça da Liberdade, (na altura Praça de D. Pedro), em frente do antigo edifício da Câmara Municipal. O Dr. Alves Veiga, responsável civil do movimento, proclamou a República em nome do Governo Provisório, lendo os nomes que o compunham, e hasteou, às sete da manhã, uma bandeira verde-rubra do centro Democrático Federal 15 de Novembro do PRP. Houve foguetes e a fanfarra militar tocou A Portuguesa.

 

 

 

 

Entusiasmada, a multidão subiu a Rua de Santo António (hoje 31 de Janeiro), tencionando tomar a estação dos Correios e Telégrafos, situada na Praça da Batalha. Porém, entrincheirada no escadório da Igreja de Santo

 Ildefonso, ao cimo da Rua, estava a Guarda Municipal que abriu fogo de metralhadora sobre a multidão, causando vítimas entre os militares e os civis que, em jeito de festa, subiam descuidadamente a rua. Os insurrectos, tentaram regressar à praça de D. Pedro. A bateria de artilharia da Serra do Pilar começou a disparar sobre o edifício dos Paços do Concelho. Morreram 12 pessoas e cerca de 40 ficaram feridas. Às nove da manhã, o movimento estava derrotado e os seus responsáveis em fuga..Os julgamentos processaram-se em navios da Armada, fundeados ao largo de Leixões. Mais de cinco centenas de militares e numerosos civis compareceram a Conselho de Guerra. Houve duas centenas de condenações, com penas que oscilaram entre os 18 meses e os 15 anos de prisão.

 

 

 

Embora fracassando no plano militar, o movimento de 31 de Janeiro constituiu  uma vitória política, pois transformou-se numa num símbolo do inconformismo republicano.

 

Dezanove anos depois a República seria implantada.

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