DIÁRIO DE BORDO, 7 de Fevereiro de 2012


 

 

Ontem, aqui em A Viagem dos Argonautas foram publicados dois magníficos posts, do José Goulão e do Pezarat Correia, que nos vieram colocar bem à vista a situação assustadora que se vive no Médio Oriente. Parece que estamos numa época em que a todos os níveis nos querem fazer entrarem pânico. Por um lado, temos a economia, em nome da qual nos exigem um empobrecimento continuado, para substituir um desenvolvimento sustentável que andou a ser prometido por chefes sucessivos ao longo de vários anos. Por outro, dão a volta ao mundo notícias de povos que querem a democracia, mas que assim que vislumbram uma réstia de liberdade, uma ténue possibilidade de melhorar de melhorar as suas vidas e de, nem que apenas um pouco, intervirem nas decisões políticas que lhes dizem respeito, vêem as suas vidas entrar num caos impensável. A desordem que aconteceu num estádio de futebol do Egipto há poucos dias é um sintoma claro de uma sociedade que perdeu o controle de si própria.

 

Os povos que viveram muito tempo sob regimes opressivos, quando conseguem derrubar os seus tiranos, têm necessariamente de ter um período para adaptação e consolidação. Reconhecê-lo é apenas o senso mais elementar. Nesse período de adaptação são vulneráveis a pressões e influências. Para que possam ultrapassar decisivamente essa fase têm de encontrar por eles próprios o seu caminho. No Médio Oriente, isso tem estado particularmente difícil. Os regimes democráticos ali têm tido uma vida particularmente difícil, e não é de agora. Recorde-se o derrube, no Irão, em 1953, do governo chefiado por Mossadeque, por oficiais influenciados pelos EUA e pela Grã-Bretanha. A inimizade das duas potências foi motivada pela expropriação dos campos petrolíferos existentes no país. O Irão numa mais teve um regime democrático. Sucedeu-se o regime tirânico do Xá (embora muita comunicação ocidental colaborasse no seu branqueamento) e depois a teocracia dos aiatolas, que se mantém.

 

As potências ocidentais nunca encararam com seriedade a democratização dos países árabes, embora se procure fazer passar a mensagem contrária. No que respeita ao Médio Oriente (dirão, não só) reina uma desinformação total, para permitir que passe a ideia contrária. Ontem, um interveniente num programa de televisão, ligado ao PSD, afirmava com ar grave, que a ONU, ao não intervir na Síria, estava a discriminá-la em relação à Líbia, querendo dar a entender que esta estaria num processo de democratização, graças à intervenção de fora. Procura-se assim preparar o terreno para outra intervenção, em escala muito maior que na Líbia.

 

A questão religiosa é manipulada de modo a acirrar os conflitos. O conflito entre as duas grandes facções islâmicas, os sunitas e os chitas, é cada vez mais encorajado. O Irão é a maior potência chita, e os sunitas governam a Arábia Saudita. A agitação na sequência do que se chamou a Primavera Árabe foi propícia ao avanço dos movimentos religiosos, que muitos apoiam, não por sentimentos religiosos arreigados, mas por acharem que são a melhor defesa contra as ditaduras e o Ocidente.

 

Repare-se que Israel também quer instaurar um estado confessional, que lhe permitirá consolidar a expulsão dos muçulmanos do seu território. E que a situação dos palestinianos ficou submersa neste panorama. A estes não há resolução da ONU que lhes valha. Já não têm conta os vetos no Conselho de Segurança.

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