Quando a legalidade não serve a justiça, onde anda a democracia? – Augusta Clara

 


 

Baltazar Garzón foi condenado  a ficar afastado durante 11 anos do seu cargo de juiz por ter usado processos considerados ilegais face às leis do Estado espanhol a fim de poder incriminar agentes da alta corrupção praticada dentro da administração pública.


É evidente que nesta justiça que só vê para um lado Garzón não tem safa. O homem que tanta seriedade tem demonstrado no combate ao crime, não só “em casa” – lembremo-nos como recorreu ao direito internacional para fazer com que Pinochet pagasse pelos crimes cometidos no Chile após o golpe militar que derrubou Salvador Allende em Setembro de 1973 –   é, agora, vilipendiado como um fora da lei e vê arruinada a sua brilhante carreira de magistrado e de homem justo.


Baltazar Gárzon propunha-se, também, julgar o franquismo e as suas atrocidades iniciadas com a queda da república anterior à Guerra Civil e que continuou, terrorista e sanguinariamente, por várias décadas do século passado. Queria dar um pouco de conforto e de sensação de justiça às famílias dos mortos e desaparecidos nesse atroz conflito que a nossa promissora civilização europeia entregou ao diabo, aos diabos, melhor dizendo – Hitler e Franco – para não desagradar ao primeiro.


Para mim, Baltazár Garzon é um homem de bem, dessa gente que Sophia enalteceu em alguns versos:


“porque os outros calculam e tu não”

“porque os outros procuram os abrigos e tu vais de mãos dadas com os perigos”.


Não tardará o justo a ficar por vilão e os corruptos a saírem da prisão como heróis sem nada se ter provado, ou mesmo apesar da prova.


Irá algum dia haver democracia quando só tão tarde, ou nunca, se corrigem os erros históricos, quando aquilo que é justo, embora “fora da lei”, é travado sempre por interesses alheios à própria justiça?


E Garzón é, também, para mim um revolucionário no sentido mais genuíno do termo. Podemos, em nome do tal Estado de Direito que era bom que existisse mas é uma grande mentira, não concordar com as escutas telefónicas que usou. Mas não podemos deixar de enaltecer o sacrifício que este homem fez da sua brilhante carreira profissional para dar o exemplo do que é a luta pela tal sociedade humana e justa que…não existe e, muito provavelmente o irá deixar cair no esquecimento por anos seguidos, como aconteceu com Aristides Sousa Mendes e tantos outros homens e mulheres de igual índole generosa e lutadora.


É bem verdade que as revoluções, de algum modo, eliminam sempre os seus actores. Os processos contrários enaltecem-nos.


Baltazar Gárzon bem merecia que lhe enaltecêssemos o que tem tentado fazer em prol duma Humanidade que nunca mais aprende a distinguir os amigos dos inimigos.

 

 

 

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