A Revolta de Fevereiro de 1927 – 3 – por Carlos Loures

(Continuação)

 

 

O balanço da Revolta no Porto

 

No opúsculo “Memórias de um sitiado (5 dias e 5 noites sob a metralha)”, datado de 1927, são identificados os oficiais presos no final da revolta do Porto: um general (Sousa Dias), dois coronéis, três majores, 18 capitães, 55 tenentes, seis alferes, três músicos das bandas militares. O mesmo documento refere que até 11 de Fevereiro tinham sido presos 125 sargentos e 22 civis. Os presos foram depois conduzidos à Penitenciária de Lisboa.

 

Durante a revolta no Porto terão morrido mais de 100 pessoas, entre militares e civis. Foram mais de 500 os feridos, alguns dos quais viriam a sucumbir nos dias seguintes, mais de um milhar de prisões, muitas deportações. Estes dados parecem-me fiáveis, embora haja estimativas que apontam para números muito mais elevados, quer quanto aos mortos, quer quanto aos feridos.

 

As ruas e edifícios do centro do Porto ficaram consideravelmente danificados. Edifícios n Praça da Liberdade, os quartéis das três corporações de bombeiros, cafés na Praça da Batalha, onde o palacete dos Guedes onde estavam instalados os C.T.T., semi destruído pelo incêndio provocado por uma granada, um altar da igreja dos Congregados, a estação de S. Bento; o edifício do Governo Civil; o Hospital de Joaquim Urbano; e os hotéis Aliança, à entrada da Rua de Sampaio Bruno, Grande Hotel do Porto, onde uma granada atingiu o quarto do cônsul norte-americano, e o Sul-Americano, na Batalha, que ficou com a fachada crivada de projécteis.

 

Sofreram também grandes danos o Quartel-General e o Regimento de Infantaria 18; o Salão Rivoli, antigo Teatro Nacional; e a Tabacaria Africana, situada ao cimo da Rua de 31 de Janeiro e que podemos ver na fotografia da «trincheira da morte».

 

O saldo desta primeira grande tentativa de derrube da Ditadura Militar foi, pois, negativo. Iniciou um conjunto de movimentos insurreccionais que ficaram conhecidos pelo Reviralhismo. Razões para a derrota? Descoordenação evidente entre os dois pólos revolucionários, hesitação e fraca adesão dos militares das unidades de Lisboa que ao atrasarem o desencadear da sedição na capital, permitiram ao Governo gerir os movimentos de tropas, acorrendo ao Norte primeiro e concentrar todas as forças no combate aos entrincheirados no Porto, atacando depois em Lisboa. Passados dias do esmagamento da rebelião nas duas principais cidades, rebentaria uma rebelião de grandes proporções em Lisboa.

 

Na tarde do dia 9, a posição dos revoltosos era crítica, com os governamentais dominando o Porto e vencendo em Lisboa. Terminada a contenda, os revoltosos derrotados fazem uma análise amarga aos acontecimentos, apontando como principal razão para o insucesso a falta de adesão em Lisboa. O general Sousa Dias, atribuiu o insucesso «à falta de acção de elementos militares mais do que suficientes para garantir o seu êxito em todo o País, e que no momento necessário faltaram».

 

Encerro este capítulo com palavras das «Memórias do Capitão». Diz Sarmento Pimentel: «Às 8 da noite, na posição de artilharia que estava além do Monte Pedral, despedimo-nos com lágrimas nos olhos e um abraço de fraterna camaradagem, eu, o major Faria Leal, o tenente Seca, o capitão Alcídio da Guarda Republicana, o tenente Mário de Almeida e mais dois outros oficiais cujos nomes esqueci. Combinámos que cada um se esconderia onde pudesse e iria depois, ou entregar-se ou emigrar.» (…) «E encontrei-me só na rua escura e deserta, voltada para os lados de Rio Tinto onde as luzes da povoação marcavam o caminho de Ermesinde e linha do Douro».

 

 (Continua)

 

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