GIRO DO HORIZONTE – A IMPUNIDADE DE ISRAEL – por PEDRO DE PEZARAT CORREIA

 

         Era inevitável voltar ao assunto no meu GDH. E, receio bem, não será a última vez.

       Têm-se intensificado, nos últimos dias, as notícias sobre um ataque de Israel ao Irão. Assim, a frio, sem qualquer espírito crítico. Apenas se equaciona quando e como. A recente visita a Washington de Benjamim Netanyahu, chefe de um governo que inclui personalidades assumidamente fascistas e racistas, que negam o direito à existência de um Estado Palestiniano (émulos israelitas dos extremistas islâmicos que negam o direito à existência do Estado Sionista e, por isso, o Hamas, eleito na Palestina, foi banido pela chamada comunidade internacional), mais parecia a reedição da cimeira do Açores que precedeu a agressão ao Iraque de trágicas consequências. E as especulações sobre a iminência do ataque ao Irão encheram noticiários e colunas de jornais. Barack Obama, preocupado em captar apoios eleitorais na comunidade judaica, traía-se a si próprio engrossando a voz e reiterando a Netanyahu compreensão e garantia de que Israel poderia contar com ele nas suas bélicas aventuras.

         O Diário de Notícias de hoje, 12 de Março, enche as páginas centrais, com chamada em destaque de primeira página, antevisando o ataque israelita ao Irão. Equaciona-se tudo, friamente, tecnocraticamente, descomprometidamente:

– tem ou não Israel capacidade militar própria?

– contará ou não com o apoio e cobertura dos EUA?

– terá ou não sucesso?

– qual a capacidade de retaliação do Irão?

– que papel poderão ter o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Palestina?

– irá o Irão fechar a navegação no Golfo Pérsico bloqueando o Estreito de Ormuz; que consequências daí advirão para o comércio mundial do petróleo?

– ascenderá ou não o conflito aos patamares regional e global?

– que efeitos perversos poderão resultar, apenas se atrasará o programa nuclear iraniano e tornará irreversível a opção pela arma nuclear que ainda não estará tomada?

         Enfim, um manancial de especulações, de hipóteses académicas, que para além de parecerem desprezar os custos humanos, fogem do fundamental: que moralidade, que legitimidade, que mandato tem Israel, potência nuclear clandestina e não assumida, campeão das violações às resoluções da ONU, para se arvorar em fiscal e executor regional das regras internacionais, permitindo-se desencadear unilateralmente agressões armadas contra outros Estados? Como é que a ONU, os EUA, a UE, calam o anúncio despudorado de uma óbvia violação do direito internacional e dão até sinais de a fomentarem? Há um óbvio complexo de culpa dos ocidentais face às perseguições, violências, barbaridades, de que os judeus foram vítimas ao longo da história. O problema é que estão a procurar resgatar as suas culpas à custa de terceiros.

          À ONU, particularmente, cabe aqui uma grave responsabilidade. O Conselho de Segurança definiu, sem ambiguidades, a diferença entre uma acção preemptiva e uma acção preventiva:

– acção preemptiva, por antecipação como o nome sugere, é a que é desencadeada quando se enfrenta, não apenas uma ameaça, mas a iminência de um ataque que exige a sua neutralização; é considerada uma acção defensiva e em legítima defesa;

– acção preventiva é a que é desencadeada sem que esteja iminente qualquer ataque, apenas para neutralizar uma presumível ameaça ou para inverter uma situação menos favorável; a ONU reserva para si a concessão de legitimidade para se desencadear uma acção preventiva, classificando como agressão ilegítima qualquer acção preventiva que não parta da sua iniciativa.

      É, portanto uma acção preventiva, logo uma agressão, que Israel se permite anunciar, perante a condescendência das potências ocidentais e a passividade da ONU. Esta prepara-se para vir, a posteriori, lamentar o sucedido, condenar a agressão, exigir de ambas as partes que parem com umas hostilidades que nada fez para impedir. Lava as mãos, como Pilatos. Podemos estar em vésperas de acontecimentos gravíssimos que apenas acrescentarão caos ao caos do Iraque e ao caos do Afeganistão. Para já não falar nas conturbadas primaveras árabes, na Síria, no Egipto, na Líbia, etc. Esses acontecimentos não constituirão, seguramente aquilo que este mundo em crise mais necessitaria neste momento. Ou será que, como se interrogava há semanas atrás o João Machado, é esta a guerra que a crise mundial global está a pedir?

            Até onde nos levará a impunidade de Israel?

 

12 de Março 2012

 

Comentários:

 

De Augusta Clara a 12 de Março de 2012 às 21:20

Cada vez tenho mais vergonhosa de pertencer a esta “União” Europeia. Se nem dentro de si própria consegue ser solidária, como poderá sê-lo com outros povos? Não esqueçamos que tem à frente da sua Comissão um desertor às responsabilidades governamentais do seu país e o mordomo da cimeira dos Açores que conduziu ao que sabemos.
Quanto ao Conselho de Segurança será mais é de Insegurança com todas as categorias de actos bélicos que inventou para dar cobertura a usurpações e intervenções ilegais. De facto, não há hoje no mundo nenhuma instituição que zele pela segurança dos povos.

 

De Augusta Clara a 12 de Março de 2012 às 21:23

Corrijo: não é “vergonhosa” mas sim “vergonha”

 

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De João Machado a 13 de Março de 2012 às 15:47

A situação que se vive na Palestina é da maior gravidade. Por mais que a propaganda dominante o queira calar, o que se passa é que Israel está tentando empurrar os palestinianos para fora da sua terra. A criação de um estado confessional cria a base para só admitir como cidadãos de pleno direito, dentro das fronteiras que forem impostas, quem for afecto à religião oficial, ou pelo menos a ela aceitar sujeitar-se.
Mas por cima disso, há outra questão. Até que ponto, em termos estratégicos, Israel é um peão da política norte-americana? Entre Israel e os EUA, quem é o jogador e quem é o peão? Obama cede ao lobby judaica. Os candidatos republicanos idem. Mas é preciso ver quais são os interesses dos EUA em jogo, que os leva a apoiar Israel.
E a União Europeia? Porque apoia Israel? Será só por um complexo de culpa?
Obrigado, Pezarat Correia, pela sua atenção. Penso realmente que estamos perante uma questão muito complexa, que requer toda a nossa atenção.

 

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De Augusta Clara a 13 de Março de 2012 às 18:26

João, há muito tempo que não restam dúvidas sobre o peso que o lobby judeu tem nos EUA a ponto destes terem simulado o apadrinhamento de acordos vários que já sabem que Israel nunca cumpre. Quanto à Europa, com quem Israel tem grande parte das transacções comerciais, nunca utilizou essa arma para defender os palestinianos.

 

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De João Machado a 14 de Março de 2012 às 01:49

Com certeza, Augusta. Isso está perfeitamente claro. Mas seria importante ir mais longe na análise do drama em curso no Médio Oriente. Não é só por uma questão eleitoral, ou por complexos de culpa, que se mantém uma potência poderosamente armada, e cuja expansão se tolera (eu acho que se encoraja), esmagando lentamente os povos que vivem na região.

 

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De Augusta Clara a 14 de Março de 2012 às 04:07

Pois não. Esses dois – EUA e Israel – representam na perfeição aquilo que se chama uma simbiose – a união de dois com proveito mútuo.
Eu acho que complexos de culpa não há nenhuns. Já aqui referi uma vez o que o escritor israelita Amos Oz conta na autobiografia sobre o modo como os judeus que já viviam em Israel trataram os outros judeus que começaram a chegar da Europa, muitos deles vindos dos campos de concentração nazis: desprezando-os como maltrapilhos.
Por outro lado, a pressão do dinheiro do lobby judeu na América compra a protecção que eles, apesar dum exército bem equipado, precisam de garantir no meio “envenenado” em que os ingleses os instalaram – rodeados de árabes – sobretudo depois de todas as atrocidades que lá cometeram desde que chegaram em 1948. Para os Estados Unidos eles são uma ponta de lança no reino do petróleo.
Salvo se alguém me der alguma explicação mais convincente, parece-me que estes motivos são bem fortes para eternizarem esta situação. E, também, por culpa dos árabes ricos, claro, que querem lá saber dos seus irmãos palestinianos.
É um nó que não sei como alguma vez se desatará.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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