EM COMBATE – 16 – por José Brandão

O  MATA ALFERES.

 

Os guerrilheiros da UPA estavam a entrar numa táctica selectiva, a coberto da vegetação.Um tiro, uma baixa, visando normalmente o militar de patente mais elevada, que seguia no Jipe da frente, que embora blindado, passava a ser o alvo a atingir.

 

Chegara uma nova fase da insurreição! Tinha entrado em acção o que depois veio a ser referenciado por “mata alferes”, o desertor do exército português António Fernandes, no aproveitamento da sua excepcional pontaria. Chegados a seis de Março, em mais uma acção levada a cabo por tropas da CCav 297 de comando, houve a baixa de um furriel, havendo ainda a assinalar o ferimento de um soldado.

 

 

 

 

Idas a Nambuangongo e à Fazenda Beira Baixa, em conjunto com outras continuavam. A vinte e sete de Março chegou, finalmente uma companhia a render a CCav 297 do Lifune Tari.

 

Já a quatro de Abril formou toda a CCav 297, a fim da formalidade militar de cumprir a praxe de prestar honra à Bandeira Pátria, descerrada de seguida, visto que, no dia seguinte deixávamos definitivamente o Lifune Tari.

 

No dia cinco de Abril do longínquo ano mil novecentos e sessenta e três, todo o Batalhão espalhado por Fazendas na vasta região dos Dembos, a norte de Luanda, deixou essa zona de intervenção, para depois de cumprido ali o tempo de guerra, se ir instalar mais a sul, onde o serviço era destinado apenas a salvaguardar, com a sua presença, a soberania portuguesa no território, enquanto se ia dedicar a uma acção psico social mais calma.

 

Logo nessa manhã, no corredor entre o Tari e o Mucondo, num sítio onde se evidencia uma curva, a ideal para os terroristas da UPA planearem uma emboscada à CCav 297, de modo que durante quarenta e nove minutos, estalaram inúmeros disparos, por parte das tropas atacadas em movimento.

 

Pela única vez a CCav 297 se viu envolvido num ataque de tal envergadura. A estrada tomava o aspecto de uma verdadeira batalha, em que o armamento disponível era desusado, mesmo para o tipo de guerrilha a despontar, já que era o proveniente da substituição, composto por Mausers e metralhadoras ligeiras. O ataque acabou por ser mais longo do que o conhecido, usualmente, em que a técnica usada era o “bate e foge”! Aquele, porém foi muito vasto, porque era a retaliação reservada à 297, uma vez que o CCav 297 tinha sido considerado, pelo inimigo, como inacessível, ao poder militar da força terrorista da região.

 

Ao avaliar os estragos, houve quem subisse de novo às camionetas e ainda visse fugitivos muito ao longe, a lei da balística contrariava as hipóteses de os atingir, não obstante ainda saiu bastante tiroteio, á mistura com contundentes imprecações direccionadas aos “turras” em debandada.

 

Aconteceu uma verdadeira tragédia de guerra, que se irá contar sem truques de ficção, como é recorrente desta narrativa.

 

Começa pelo comandante da CCav 297, Alves Ribeiro, a subir à camioneta civil, principal acidentada, porque terá entrado na zona mais nevrálgica, atingida por uma granada incendiária.

 

Quando ainda não havia total conhecimento da dimensão da batalha, em relação à força militar, de outro lado, pode considerar-se actuação de bravura a do soldado Dimas, que com as muitas imprecações evidenciadas, a esvair-se em sangue dos membros inferiores, continuava a disparar, tiro a tiro, com a sua Mauser, em ritmo frenético no abre a culatra, fecha a culatra e dispara.

 

O Dimas, já depois de passada a mobilização, ainda se encontrava em Lisboa, a receber tratamento no hospital militar, o que aconteceu durante muito tempo, acabando por ficar com um certo grau de invalidez.

 

Com razoável rapidez chegaram meios aéreos, já desnecessários, mas não deixando de marcar presença com o despejo de alguma artilharia.

 

Chegou a altura de conferir, não só a devastação, mas tomar conhecimento de outros casos, como o espantoso do Alípio, atirador cuja formação profissional e dotes foram aproveitados para tarefas administrativas.

 

Por não ter chegado a pertencer à tropa de guerra, foi-lhe destinado lugar ao lado do motorista numa viatura civil. O condutor foi abatido, ao atirar-se para o chão.

 

Presume-se que o lado do Alípio também estava no ponto de mira – abria a porta e seria mais uma baixa mortal. Tal não aconteceu, o militar mostrando um coeficiente de inteligência muito elevado, saltou para o lado contrário, ainda que, por cima do cadáver.

 

No momento seguinte a outra porta da mesma viatura, que não se abrira, foi cravejada de balas!

 

Anotadas as respectivas baixas, cifravam-se em seis mortos, entre eles o condutor civil e doze feridos.

 

Uma viatura transportava os cadáveres a sepultar na Fazenda Mucondo, os feridos já tinham sido evacuados, por helicóptero para o Hospital Militar de Luanda.

 

 De seguida, foi retomada a ida para o Grafanil – Luanda.

 

Aquela viagem de tragédia, iria passar por estrada alcatroada, trabalho de engenharia militar, coisa que durante treze meses esteve vedada à maioria dos militares que compunham a coluna, como se estivessem a entrar no éden do planeta terra.

 

Rumando em estrada pavimentada, logo quase de início, deparou-se à esquerda o morro da Pedra Verde, agora pacificado e altaneiro, como um ícone dos alvores do terrorismo, tomado nos mesmos tempos, com os foros de heroicidade e a mesma euforia verificada com a reocupação de Nambuangongo.

 

 Tinha chegado a altura de todo o Batalhão 350 regressar, por dois dias, ao Grafanil, local de passagem para Quanza Sul, onde ia estacionar em serviço e ao mesmo tempo gozar, como de um prémio, pelo tempo em operação a Norte, onde se estava a desenvolver o terrorismo.

 

Ainda a sete de Abril de 1963, toda a gente, mormente o pessoal da CCav 297, em formatura ouviu ordens e boas palavras do respectivo comandante, para gozar bem, a breve estadia na cidade de Luanda. 17

 

A seguir: GABELA.

2 Comments

  1. Eu ia na coluna tive sorte porque a viatura civil onde eu ia era a antepenultima e ficou fora de fogo do inimigo porque estava numa zona onde o fogo passava muito pelo alto naquele ataque o nosso capitao Joao Ramiro Alves Ribeiro foi um grande heröi

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