EM COMBATE – 44 – por José Brandão

 

 

A SERRA

 

 

Serra da Canhanga ZIN.

 

Estas letras querem dizer em bom português,”Zona Intervenção Norte”: Um dia de manhã “montamo-nos” nas viaturas, sob o comando de um oficial com a graduação de alferes da companhia 1494. Saímos do nosso aquartelamento e lá vamos nós bater picada de terra batida poeirenta, porque era verão em Angola. O capim quase não deixava ver o rodado por onde as viaturas deviam passar.

 

Raramente sabíamos para onde íamos, e o nosso lema era “bico calado”, até porque nas viaturas, no vidro da frente, tínhamos aplicado o desenho de um Mocho, ideia do Alferes Borges.

 

Feitos alguns quilómetros nas viaturas, eis que chegamos à zona do Songo mais propriamente com destino à Serra da Cananga. Santuário de Guerra, era no cimo desta serra que havia um agrupamento de voluntários, uma espécie de forte segundo disseram, todo armadilhado nas redondeza para que ninguém se aproximasse.
Ao sairmos das viaturas numa zona relativamente baixa, vale onde abundava quantidade de árvores de café, principiamos a nossa aventura. Ao prepararmo-nos, de repente sucede-se uma forte tempestade de tropical juntamente com relâmpagos, que durou todo o tempo até chegarmos ao nosso objectivo. Para subir esta Serra, já de noite íamos agarrados uns aos outros e só se vislumbrava algo, quando do clarão dos relâmpagos.
Nesta passagem pela mata, numa questão de minutos, formou-se um autêntico rio. A água dava-nos pelos ombros e alguns de nós tiveram de ser puxados uns pelos outros, a fim de não sermos arrastados pela corrente.

 

Chegados ao cimo da serra todos encharcados, os militares que aí estavam já nos esperavam.

 

Emprestaram-nos aquilo que puderam, a fim de passarmos a noite. A mim tocou-me o empréstimo de um cobertor. Enrolei-me nele e assim passei toda a noite em cima de um ordinário colchão de cimento, nu.

Outros soldados com menos sorte pernoitaram toda a noite em plena mata, encostados às árvores debaixo de uma tempestade tropical. Um deles, o José Godinho das quintas da Borralheira Telhado.

 

Na manhã seguinte toca a erguer que é dia. Como pequeno-almoço, uma bisnaga não sei de quê, vestimos o camuflado tal e qual o tínhamos tirado no dia anterior. Como o tempo melhorou, este secou no corpo e lá continuamos o patrulhamento pelas aéreas estabelecidas. Durante três dias alimentados a ração de combate, a água escasseava e não a encontrávamos.

 

Depois desta operação com nome que já não recordo, nada encontramos que estivesse relacionado com o inimigo. Apesar do segredo, eles mediam bem os passos que a tropa portuguesa dava.

Todas as saídas que nós tropa na altura fazíamos, eram sempre baseadas no mesmo sentido: encontrar o inimigo.

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