Há muitas razões para gostar de Leonard Cohen. A sua voz rouca que se vai fazendo mais grave, mais densa,
com o passar dos anos, o lirismo das suas letras, a beleza das melodias, o seu conhecido desapego ao lado mundano da música, a essa notoriedade oca que tantos buscam. Gosto de Cohen por tudo isso, mas também por não ter cedido à imposição do mercado do espectáculo, e não ter escondido a sua velhice do público. O showbizz é dos jovens, e daqueles que, já não o sendo, alisam as rugas, insuflam-se de botox, e se vão distanciando cada vez mais do que são. Cohen tem 78 anos (setenta e oito anos!) e continua a subir ao palco, com os impecáveis fatos que já ninguém usa e o borsalino que há-de levantar muitas vezes a cada noite para agradecer ao seu público.
Leonard Cohen é autor de várias canções que se podem considerar “românticas”, embora quase sempre tingidas pela melancolia, pela perda, pelas dificuldades de comunicação entre aqueles que se amam. Esta que escolhemos, Dance me to the end of love (publicada em 1984 no álbum “Various Positions”), é, na aparência, uma canção romântica, mas tem uma origem mais sombria. Cohen contou numa entrevista que a canção nasceu depois de ele ter lido que em alguns campos de concentração havia um quarteto de cordas formado por prisioneiros, que tocava enquanto decorriam as execuções, enquanto os fornos crematórios incineravam os cadáveres dos companheiros desses músicos. Mas, partindo dessa terrível história, Cohen não quis escrever uma elegia. Dance me to the end of love é uma exaltação da vida e da paixão. Quando a escutamos podemos fechar os olhos e imaginar um par que vai dançando enquanto as luzes se apagam, uma a uma, até à escuridão total, até ao fim do amor.

