Recentemente referi num texto a noção de “resiliência”, cujo termo levantou algumas questões, pela sua aplicação vinda de outras ciências. Acontece que este uso existe há mais de 30 anos, teve origem em países de língua francesa e inglesa, a partir de cientistas de vários ramos. E porque devemos todos saber do que falamos quando utilizamos um termo, aqui fica uma achega.
No livro “A Resiliência – ultrapassar os traumatismos”, de Marie Anaut (Climepsi editores, Lisboa, 2005), na página 45 podemos ler: “A resiliência é um termo francês surgido do latim resilientia, que é habitualmente utilizado em física de materiais para designar a “resistência do material a choques elevados e a capacidade de uma estrutura para absorver a anergia cinética do meio sem se modificar” (Dictionnaire Robert). (…) Em informática, a resiliência diz respeito à qualidade de um sistema que lhe permite continuar a funcionar apesar das anomalias, ligadas às falhas de um ou vários elementos constitutivos”. (…) Uma revisão da literatura permite situar a emergência deste conceito no início dos anos 80….Bowlby para designar “a força moral, a qualidade de uma pessoa que não se desencoraja, que não se deixa abater”.
Na pág. 42, resiliência será “a capacidade de sair vencedor de uma prova que poderia ser traumática, com uma força renovada.”
Este termo tem sido já muito referido por Raul Iturra, ainda recentemente, no dia 28.4.2012, quando abordava o assunto da homossexualidade e da pedofilia. E já em Agosto do ano passado tivera um apontamento com o título “RESILIÊNCIA E OS SEUS HERÓIS”.
Aproveito para transcrever a definição de Boris Cyrulnik, um dos teóricos deste conceito, numa conferência para a qual o convidei, em Lisboa, em 2005:
“Então, chegamos à definição possível de resiliência. A resiliência vem do mundo da Física. Em psicologia e na psicanálise, usam-se metáforas que vêm da física. A “sublimação”, por exemplo. Quando se diz “este filme é sublime”, não se pensa na origem da palavra, que fala da transformação de um corpo sólido que passa directamente para um estado de vapor. Foi Freud que propôs esta metáfora e, hoje, quando se vai ao cinema e se diz que um filme é sublime, não se pensa na transformação química. O que não impede que venha dessa metáfora química. Outro exemplo: quando se diz que se está “deprimido”, não se pensa que se está abaixo de um certo nível de pressão física. E, no entanto, é uma metáfora que vem da física e que quer dizer falta de pressão, estar-se abaixo de um certo nível de pressão, de uma certa força.
Então, a psicologia e a psicanálise estão cheias de metáforas. E as metáforas ajudam a pensar. Mas podem também ser uma armadilha para o pensamento…Ora, a resiliência é uma metáfora que vem da Física, o que quer dizer que um corpo físico recebe um golpe, não se parte e retoma um tipo de desenvolvimento, guardando a memória do golpe na estrutura física. Em analogia, o trauma que foi recebido, no caso de uma criança que fica traumatizada, fica esse traço gravado no seu cérebro. Se a deixarmos só, essa criança vai morrer fisicamente – as explicações da Biologia que hoje sabemos -, vai morrer psicologicamente, vai ficar débil, vai ter medo de tudo, vai ficar delinquente, porque não aprendeu os rituais da interacção. Mas, se tomarmos consciência deste raciocínio, vamos envolvê-la, vamos organizar à sua volta estruturas de interacção que lhe permitirão retomar o seu desenvolvimento. Esta é uma definição possível de resiliência.”




Obrigada pelo teu esclarecimento, Clara. Por ele se vê como o conceito de resiliência é recente nas ciências sociais e humanas – 30 anos é pouco e, segundo dizes, nalgumas áreas é, ainda, mais recente. Daí que, nesse sentido, só me tenha chegado aos ouvidos há pouco mais duma década. Mas é caso para se perguntar porque não terão essas ciências criado conceitos próprios, usando, pelo contrário, em número crescente, termos importados das ciências exactas e naturais? É que estas últimas utilizam métodos de análise muito rigorosa em termos quantitativos dado lidarem com o mundo físico, no sentido geral do termo (o químico incluído). Por isso, a aplicação dos seus conceitos às ciências sociais e humanas, que estudam pessoas e comunidades, torna-se necessariamente redutora. Até a própria Biologia – uma ciência natural, não exacta – cientistas como Ilia Prigogine provaram, recentemente, escapar a algumas leis físicas de que é exemplo o 2º. Princípio da Termodinâmica. E Freud não escapou à influência do Positivismo.Portanto, para além das modas linguísticas, há, ainda, estes aspectos a referir sobre o uso desses termos.
Corrijo: não era aplicação de “conceitos” que queria dizer, mas sim de “terminologia”.