O GATO COMEU – por Fernando Correia da Silva

Um café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos treze anos fui iniciado nas lides amorosas. Quem me iniciou foi a Ritinha, a filha do carvoeiro da esquina, rapariga já com uns vinte anos. Ai meu querido, puxou-me a si. Mostra lá o pirolito. Já tem barba e não para de crescer, que bonito. Menino, tu já estás um homenzinho de verdade. Lagartinho, lagartão, que precioso sardão. Embora eu nunca tivesse feito o confronto, eu bem sabia que ela era diferente de mim. Mas fingi a inocência, era a ronha a rebentar. Agora Rita, não me irrita, és tu quem vai mostrar o pirolito. Riu-se, eu não tenho, o gato comeu. Abanei a cabeça, não acredito, mostra lá… Puxou a saia e mostrou, estás a ver que não tenho? Lamentei: ai coitadinha, malandro do gato… Era eu a fazer festas no que ela tinha para honra e glória do que não tinha. Eu posso emprestar-te o meu, queres? Riu-se, apertou-me e beijou-me muito, ai que o menino já sabe a lição toda… Levou-me aos fundos da carvoaria e fiz-lhe o empréstimo. Foi bom, foi muito bom. Esta brincadeira do gato comeu deu-me muito desembaraço para as futuras abordagens, mostra lá, quero ver se o gato também comeu o teu, de gargalhada em gargalhada até cairmos na cama. A estratégia só meteu água com a Irene. Eu a dizer o gato comeu e ela a acertar-me uma lamparina a meio da fronha. Recolhi as unhas. Um ano depois estávamos casados. Fizemos filhos, quatro. E já temos oito netos… Ontem fez setenta anos. Dei-lhe os parabéns e ousei perguntar-lhe, outra vez, se o gato comera. Mas tive o cuidado de saltar para trás e levantar o braço a proteger o rosto. Para meu espanto a Irene largou-se a rir. Está muito mudada, a minha mulher…

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