Ontem o Correio da Manhã publicou um artigo de opinião de Paulo Morais, descrevendo sumariamente a situação dos bancos, e o modo como estão a procurar recuperar, à custa da economia e da riqueza produzida por outros. O artigo tem o sugestivo título de Bankster e sumariza em poucos linhas o que se passa. Os bancos, em má situação por responsabilidade própria, agora procuram recuperar (recapitalizar-se, como lhe chamam) com apoios que deveriam ter outros fins. E conseguem fazê-lo devido às grandes influências que exercem na área política. Querem e obtêm o apoio do Estado, mas sem lhe prestar contas. De uma coisa podemos estar certos: Paulo Morais sabe do que fala. Foi autarca, pertence à associação cívica Transparência e Integridade, e é membro da Transparência Internacional. É professor na Universidade Lusófona. Não será com certeza tempo perdido prestar atenção ao que ele diz.
O combate à corrupção, muito falado em Portugal e em todo o Mundo, entretanto depara-se com dificuldades por todo o lado. É verdade que antigamente era proibido falar destes temas na comunicação social, e até mesmo em público, enquanto que hoje em dia são toleradas referências à matéria, desde que não muito explícitas, e pouco concretizadas. Paulo Morais vai mais longe.
Há medidas que são preconizadas que, a serem postas em prática, nunca chegarão aos resultados pretendidos, ou, pelo menos, pretendidos em princípio. É o caso da proposta de Miguel Cadilhe, sobre o lançamento de um imposto de 4% sobre a riqueza líquida, para ajudar a pagar a dívida pública. Num país bem gerido, equilibrado, com um grau de corrupção nulo ou baixo, ela surtiria efeitos. Num país corrupto, com grande fuga aos impostos, dificilmente seria eficaz. Seria o caso do nosso.
A corrupção não provém apenas das insuficiências das leis, ou da sua aplicação. Deriva muito dos hábitos e dos costumes. Certas normas tradicionais no relacionamento interpessoal, quando utilizadas por pessoas menos escrupulosas, servem admiravelmente como alavancas para o chamado tráfico de influências. Ou para aquilo que se chama popularmente meter uma cunha. A alteração de padrões de comportamento social é sempre difícil, e não deve ser utilizada para criar novos problemas no lugar dos que já existem.
E existem desequilíbrios que só serão melhorados se as medidas correctivas foram aplicadas com todas as cautelas. Por exemplo: em zonas urbanas é necessário que o solo seja público. Para além da coragem política para promover as medidas necessárias, é indispensável, para que tenham sucesso, que se previnam desvios e oportunismos que, frequentemente, desacreditam o trabalho que se pretende desenvolver.

