EM COMBATE – 104 – por José Brandão

Março

 

Dias 5 e 6 – Nomadização das regiões de Fagor, Cedif, Sinchamamadu Masassane com dormida em Barro.

Dia 7 – Pelas 12 horas o 2º. Pelotão, que era aquele a que eu pertencia, partiu de Ingoré para S. Domingos, que era uma zona considerada como um “inferno”. Passamos por Antotinha e chegamos ao porto de S. Vicente, no Rio Cacheu. Entramos a bordo de um barco da Marinha, subimos o rio Cacheu, para pernoitarmos no destacamento do Cacheu, onde chegamos às 18,30 horas. Não sei como lá fui parar, mas numa das salas, assisti a um interrogatório feito pela PIDE a elementos inimigos, que nunca pensei que fossem possíveis. Tanta brutalidade feita a um ser humano, meu Deus. Saí daquela sala, com vontade de vomitar e todo suado. É que nunca estive preparado, para aquelas cenas. Não consegui pregar olho a noite inteira, só de pensar nas monstruosidades ali praticadas sobre seres humanos. Aquilo a que temos assistido na imprensa sobre o que os Americanos fizeram no Iraque, ou noutras partes do mundo, comparado com o que assisti no Cacheu, não passam de umas “festinhas”.

 

O que a guerra faz dos homens. Autênticos monstros. Afirmo aqui, solenemente, que nem eu, nem os homens que tinha sobre o meu comando, e todos os camaradas são testemunhas que nunca tocámos com um dedo sequer, em qualquer elemento aprisionado durante as operações levadas a cabo pela companhia. Certo dia, em Ingoré, fui dar com uns soldados, que não eram do meu pelotão e muito menos da minha secção, a quererem linchar um prisioneiro. Devo afirmar aqui, que foi com alguma dificuldade que o impedi. Tive que persuadir aqueles jovens de 20 anos, como eu, a não estragarem a sua vida, pois atitudes do género, dava lugar a julgamento em Tribunal Militar. Enfim, é apenas um pormenor No dia seguinte, lá seguimos viagem, rio acima.

 

Chegámos a S. Domingos às 8 horas da manhã, para nos juntarmos à companhia de Cavalaria nº1483, comandada pelo capitão Costa Gomes e à Companhia de Comando e Serviços do meu batalhão, o 1894.

No dia seguinte, o meu pelotão foi dormir ao Sonco. O Sonco, tinha sido uma tabanca, que os guerrilheiros do PAIGC, tinha varrido do mapa. Então, nós íamos para lá guardar não sei o quê. Era necessário construir abrigos onde passamos a noite, mas com sentinelas em cada abrigo. Muitos mosquitos e fome. Dormir?. “Cá pude”, que o mesmo é dizer, nem pensar. Quem é que podia? Embora sempre houvesse soldados, que o faziam.

 

Ataque inimigo ao aquartelamento de Ingoré e Ingorézinho.

 

Este ataque teve início à meia-noite e vinte minutos do dia dois de Dezembro de 1967 e veio a terminar às 11,45 horas após forte reacção das nossas tropas, isto é, durou toda a noite e todo o dia seguinte.

Depois de quatro meses e meio de permanência no destacamento do Sedengal, no dia um de Dezembro de 1967, o meu pelotão regressou a Ingoré, para aí se juntar ao resto da companhia. Eram 16 horas, quando chegámos ao quartel. Arrumámos toda a nossa bagagem e fomos jantar. Deitámo-nos por volta das 21 horas. O ataque é iniciado com rajadas de morteiro 82, 60 e de armas automáticas que se faziam ouvir de quase todos os lados, inclusive de dentro da própria tabanca. Logo no início uma morteirada atingiu a oficina dos mecânicos e um quarto onde estes dormiam, tendo ficado gravemente ferido o soldado mecânico auto “Bodas” e ligeiramente ferido o 1º. Cabo mecânico Cristalino Lopes. O Soldado Bodas, de seu nome completo António Vieira Bodas, natural de Aveiro, foi evacuado para o Hospital de Bissau.

Passados 3 ou 4 minutos após o início do ataque, saía uma auto-metralhadora para Ingorézinho e mais duas para a tabanca de Ingoré pela estrada que circunda a referida tabanca. A confusão era tanta, era preciso organizar o pessoal mas a minha secção foi das primeiras a sair do quartel com destino a Ingorézinho, após receber ordens do capitão. Cerca de 10 minutos depois do início, já estava a sair um Unimog com duas secções de atiradores para Ingorezinho para reforçar e defender aquela tabanca. O fogo inimigo caía com certa intensidade o que fez com que se incendiassem várias tabancas no lado Leste de Ingoré, tendo o capitão Costa Gomes mandado sair um grupo de combate para guarnecer aquele sector. Do mesmo modo, as ordens foram dadas a outros grupos de combate para guarnecerem toda a periferia da tabanca, tendo esta ficado cercada. Entretanto, forças de pequeno efectivo, a nível secções de caçadores actuaram dentro da tabanca em franca caça ao inimigo, ou núcleos localizados, com G3 a granadas de mão, enquanto o morteiro 81 batia toda a estrada de “Barro”, que fica mesmo ao lado de Ingorézinho, na direcção da fronteira do Senegal e na área de “Madina”, que era tida como muito activa contra as nossas tropas. As auto-metralhadoras patrulhavam permanentemente a tabanca em todas as direcções, fazendo remuniciamentos tanto aos nossos camaradas de Ingoré como de Ingorézinho e escoltando viaturas que transportavam munições. Precisamente na zona onde me encontrava com a minha secção e que já tinha sido reforçada com outros grupos de combate, foram referenciados inimigos na bolanha entre Ingoré e Ingorézinho. Entretanto, o comandante das forças, o capitão Costa Gomes deu-nos ordens para cercarmos a bolanha e batida da mesma. Esta ordem começou de imediato a ser cumprida, dispositivo este que se manteve por algum tempo. Mal rompeu o dia, iniciou-se uma batida aos elementos fora do cerco que tentavam recuperar os cercados.

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