Por Júlio Marques Mota
O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.
Um texto a partir de um outro, de Fabius Maximus de 6 de Junho de 2012
O último acto da agonia de morte da UEM já começou. Já sabíamos que os dois finais possíveis eram mais União ou mais fragmentação para não dizer mesmo, dissolução. Agora podemos ver suficiente longe, e já bem perto, para poder adivinhar sobre quando e como é que esta tragédia vai acabar. Provavelmente numa enorme crise, em que as probabilidades de erro são enormes — e as probabilidades de mais União são baixas.
“É uma necessidade imperativa e nacional pedir oficialmente aos nossos parceiros da UE para a activação do mecanismo de apoio que criamos em conjunto.” — Primeiro-ministro George Papandreou, ao solicitar um empréstimo de 45 milhões de euros da Troika (UE, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional), a 23 de Abril de 2010,
Um sonho, talvez demasiado cedo para ser real
Síntese da crise da zona euro
Essas palavras do primeiro-ministro Papandreous marcaram o início do fim da União Monetária Europeia. Agora, dois anos mais tarde, esta parece estar a entrar na sua última fase, na sua fase final, à beira da morte. Aqui estão as previsões sobre as próximas etapas, até … Não podemos ver o final, mas a hipótese de mais União ou alternativamente a da fragmentação são as duas alternativas possíveis. O sistema actual está a morrer e nesta hipótese múltiplos cenários são possíveis, e todas as barbáries são igualmente admissíveis, em pleno século XXI. Como tudo a partir daí é possível esperar recusamos procurar perspectivar para lá do seu enterro e do seu funeral. Mesmo este funeral quem é que o irá fazer? O povo nas ruas, os militares com os seus tanques, os grandes senhores da finança a quem também isto já não serve?
A União Económica e Monetária Europeia (UEM) nasceu em 1 de Janeiro de 1999 como uma ousada tentativa de unificar a Europa através da política monetária como uma etapa intermediária entre uma má estruturada Confederação e a União política total. Muitos especialistas disseram que ela iria ser um falhanço.
A crise de 2008-2009 agravou os desequilíbrios que se tinham acumulado a partir do mau estruturado projecto de UEM (para detalhes veja os artigos no final deste post.). Cada fase no processo de agonia de morte da UEM foi uma crise, expressa pelas medidas que eram lentas, tardias, por alterações introduzidas como respostas que foram puramente infinitesimais, ou seja demasiado pequenas para serem alguma vez passíveis de serem tomadas como resposta à situação de crise. Neste contexto, neste processo agonizante, cada crise era maior do que a anterior quer para a zona euro quer para a Europa como um todo.
Cada resposta era conhecida por ser uma resposta desajustada quando era feita (apesar dos enormes aplausos feitos em face de cada novo pacote de medidas de austeridade). Nada mais foi possível. Os líderes da UE, do BCE e do FMI trabalharam no interior de intervalos estreitos de liberdade de acção, dominados por uma lógica pura de mercados, sobretudo dos mercados financeiros. Exemplo disso, um apenas por mostrar à evidência a desgovernação da União Europeia, prisioneira que estava de uma estrutura criada em tempo de paz e assente na solidariedade entre os Estados membros e pasme-se, com essa solidariedade a ser pressupostamente criada através dos próprios mercados, estabelecida pela convergência das taxas de financiamento público em leilões de títulos da dívida pública e não estabelecida, não criada politicamente. Por outras palavras a União Europeia ficava assim à espera que fossem os mercados financeiros a serem eles a criar o quadro de solidariedades que é ou deve ser pressuposto de toda e qualquer União Monetária. E assim todo o espaço económico ficou subalterno à financeirização da economia. É curioso ver que todo o programa da União Europeia antes do rebentamento da bolha nos Estados Unidos era no sentido de ultrapassar os Estados Unidos na desregulamentação dos mercados e nisso, a pressão de Londres, o maior paraíso fiscal do mundo acrescente-se, era enorme. E a Europa, e Bruxelas, estavam bem disponíveis a ceder. Curiosamente, a “net value rule” que nos Estados Unidos regulamentava a necessidade de capitais próprios das instituições financeiras foi praticamente reduzida a estilhaços e a argumentação defendida eram os baixos ratios exigidos, exactamente em Londres. Bruxelas estava pois a estender o tapete à City. Um programa que só não globalmente levados a cabo e a transformar a União Europeia no maior espaço de desregulamentação financeira, porque… entretanto a crise rebentou.
(continua)

