Está marcada para os próximos dia 11 e 12 uma greve dos médicos, apoiada pela Ordem dos Médicos, SIM – Sindicato Independente dos Médicos e FNAM – Federação Nacional dos Médicos, os três principais organismos representativos da classe. Parece portanto que vai haver uma greve de grande impacto, afectando em grande escala o funcionamento dos hospitais e centros de saúde. Há várias tentativas, que com certeza vão durar até à última hora, para conseguir um acordo e assim conseguir a suspensão da greve, mas é cada vez mais duvidoso que tenham algum resultado.
Na origem desta greve está a intenção do governo do país de reservar uma verba importante para contratar médicos a empresas de trabalho temporário, em vez de reforçar os quadros através da contratação directa. Por outro lado, há muito que vinha sendo denunciada a aposta dos serviços na prestação de horas extraordinárias, informando Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do SIM que, para uma massa salarial de 700 milhões de euros, 300 milhões são para pagar a horas extraordinárias e 90 milhões para pagar às empresas de trabalho temporário (ver entrevista dada em http://www.ionline.pt/portugal/estado-viciou-medicos-horas-extraordinarias-diz-sindicato-independente). Fala-se mesmo em encorajamento à viciação em horas extraordinárias.
Há algum tempo o Ministério da Saúde defendia a posição de que não havia falta de médicos nos serviços, e de que havia mesmo médicos a mais em vários hospitais. Esta ideia não resistiu obviamente à constatação de que se está a recorrer a empresas de trabalho temporário, em grande escala, para suprir a falta de médicos nos serviços públicos. E é ainda mais óbvio que o serviço nacional de saúde tem de prestar cuidados regulares aos seus utentes, e que para tal precisa de médicos em número suficiente, a prestar serviço regularmente. A constante mudança de médico não é favorável ao utente, tendo em conta a relação de confiança que é necessário manter entre um e outro. E a questão da liberdade de escolha pode e deve ser resolvida dentro do SNS.
A questão da contratação de enfermeiros pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, pagando remunerações baixíssimas, é outra manifestação do mesmo problema: a degradação do SNS faz parte de uma política deliberada de favorecimento do sector privado. A saúde constitui um grande negócio, e há quem pretenda dele tirar proveito. A degradação dos serviços públicos destina-se a facilitar os mentores desse negócio.

