Hoje não tenho cabeça para pensar em nada para escrever.
Deixo-vos a conversa a que assisti e me tira a vontade de pensar noutras coisas. Só isto me aflige e preocupa. Como podemos ajudar as crianças que estão neste estado? E porque chegaram a elas a este estado? Que futuro vai ser o delas? E dos filhos delas?
“Depois de surgir na sala o tema “Mãe”, na sala da prof.ª F., e depois desta sair, com uma criança, começou a seguinte conversa entre duas outras crianças:
C – Agora estou preocupado… a minha mãe pode estar a morrer e ninguém sabe… nos meus pensamentos…
M – O cérebro do dinossauro é pequenino…. Onde está a tua mãe ?
C – Está no Algarve. Nunca estive com a minha mãe, só com o meu pai.
M – Já foste adoptado ?
C – Ela tinha um bebé na barriga e perdeu-o. Ele morreu na barriga e se ela morrer? Ninguém sabe…
M – Gostavas de ser adoptado?
C – A minha mãe já levou uma facada num olho, foi operada. (Alguém perguntou: Como sabes?) Ela telefona às
vezes. Eu quero ver a minha mãe. Onde ela está ? É longe.
M – Fazias um pequeno engano…sabes o caminho para a tua mãe, para ir para casa? E a casa do teu pai? É perto? Tens um olho todo vermelho!
C – Quando fico chateado fico com o olho vermelho.
…….
Não gosto de separar os pais. Eu tenho um problema. Ela agora está a namorar com outro e ele pode matá-la. Ele é um vadio. Quando ela estava com o meu pai estava tudo bem… Às vezes o meu pai vai-me visitar…
M – A mim, já não vem ninguém. A minha irmã e eu não queremos ser adoptados. A mãe já disse que tem medo que a gente seja adoptados.
C – Ser adoptado… não sei… mas acho mal! Se a mãe morresse, se eu fosse adoptado.. Mas o que é isso? Estar com desconhecidos? O que é isso?!!
M – Eu gostava de estar com a mãe, mas ela não sabe cuidar de mim.
C – E o teu pai?
M – O meu pai é bêbado.
C – O meu pai bebe água e sumo. Tenho uma tia mas não a vejo. A minha mãe não quer saber de mim, eu tenho primos, ela está a cuidar dos primos em vez de nós, que somos filhos dela. Eu queria que o pai e a mãe se juntassem outra vez. O pai vive com a tia que é muito má. Ela põe-me na rua quando está a chover. Depois o meu pai põe a tia na rua outra vez.
M – No Natal, um dia nós não fomos a casa, ficámos com a… e a mãe fez um pequeno engano e disse ao pai que
nós não fomos a casa porque íamos a uma festa. O meu pai até chorou.
C – Quando eu morava com a mãe, ela ia trabalhar e eu ficava em casa a jogar Playstation. Uma vez deixou-me no autocarro e eu fiquei com a mão presa. Quando ela me perdia dizia: “Deixe estar que ele sabe o caminho de volta para casa”. Eu era muito pequenino e não sabia… O meu pai pegava-me ao colo com um dedo. O meu pai chega ao teto da casa. É muito alto e trabalha nas obras, de noite e de dia e ganha muito dinheiro. Quando ele não quer trabalhar vai visitar-nos a mim e ao meu irmão.
M – Um amigo meu lá do ATL goza com a minha mãe. Diz que é gorda. (Alguém perguntou: E como é que ela é ?). Para mim ela é bonita.
C – Se alguém gozasse com a minha mãe, eu ia-lhe à cara! Lá no Colégio um dia um miúdo gozou e levou!”
A imagem dos pais, boa ou má, correspondendo à realidade ou fantasiada, nunca sai de dentro da cabeça das crianças. Explicar-lhes porque não estão juntos, porque foram abandonados ou afastados, é difícil e não colmata o sentimento de falta. Possam eles arranjar substitutos de afecto!




Tens razão, Clara. Discute-se tudo e mais alguma coisa e, para estas crianças, este é um problema que lhes atormenta a vida, a vai atormentar para sempre, neste mundo cão.