COMPREMOS OS BANCOS POR UM EURO – François Morin*

*Professor emérito  da Universidade de  Toulouse

 

Desde  há cinco anos, a partir do início da crise financeira, que a situação económica se continua a degradar, sobretudo na parte mais desenvolvida do mundo ocidental. Podemo-nos legitimamente perguntar se o diagnóstico desta crise foi realmente apresentado. Na nossa opinião, continuamos a  defender a ideia de que os bancos têm estado e continuam a estar  no coração da crise e a solução da dívida pública mundial inevitavelmente passa por uma retoma  nas mãos por Estados –por vontade própria ou por imposição da realidade-  do seu sistema de financiamento, ou seja, pela nacionalização da banca..

 

Relembremos  que os bancos, especialmente os maiores, têm  fabricado produtos financeiros  derivados  ( obrigações estruturadas    representativas de créditos sub-prime) que estão na origem da crise financeira de 2007. É, na verdade,  desta crise que, por sua vez, resultou a actual das dívidas dos Estados. De facto,  a dívida pública  mundial   aumentou  de 45% entre 2007 e 2011, o que é considerável, e por duas razões:  os Estados tiveram que injectar  fundos para recapitalizar  os  bancos e para  apoiar a actividade económica nos seus países.

 

Muito grandes  para alguns deles poderem    ir à falência,  estes são os únicos  actores  a estarem  simultaneamente presentes nos mercados monetários e financeiros, os bancos  aparecem como “intocáveis” aos olhos dos responsáveis políticos. No entanto, hoje, muitos deles permanecem em dificuldade por  causa dos  produtos ou dos créditos tóxicosque têm acumulado   nos seus balanços. Isto não atinge  apenas os bancos de países como a Grécia ou a Espanha. Alguns bancos alemães conhecem já, também  eles,  sérias dificuldades. É aqui que se encontra uma das razões fundamentais para o bloqueio do mercado interbancário e, como seu resultado, temosa escassez de crédito. Na verdade conceder créditocusta aos olhos dos bancos muito caro em termos de fundos próprios. Os bancos preferem titularizar os créditos concedidos aos seus clientes, actividade de muito pouco risco, mas que está totalmente distanciada do financiamento da actividade de investimento.

 

No balanço dos bancos também se acumulam os títulos de dívida soberana, ou seja, da dívida pública. Num círculo vicioso bem referenciado,quando os bancos em dificuldade recebem fundos públicos, estes são  investidos em obrigações do Estado. No entanto, o valor desses mesmos títulos vai diminuindo  com o aumento da dívida pública, contribuindo-se  desta forma para degradar um pouco mais o equilíbrio dos bancos. É assim que uma grande parte dos bancos europeus mantém uma parte substancial da dívida de seus países. Este é particularmente o caso dos bancos espanhóis, italianos e gregos, para nada dizer dos outros, como os bancos franceses, por exemplo!

 

Com esta observação, a solução, essa impõe-se com urgência. Os bancos devem assumir nas suas contas os erros que foram os seus e em que os mais graves deles estiveram na origem da crise financeira de 2007 e das suas extensões atuais. Portanto, um processo de falências bancárias que ninguém queria de momento considerar aparece, a partir de   agora, como  inevitável. É provável que os primeiros incumprimentos apareçam na Grécia ou em Espanha. Os Estados, em seguida, comprarão  estes bancos por  um euro simbólico.

 

Uma parte desta sequência é,pois, previsível. O colapso dos bancos vai levar a um choque sistémico de grande magnitude que se vai estender a todo o sector bancário mundial e não apenas ao sector europeu. Isso vai acontecer  num tempo extremamente rápido ainda aqui devido, sobretudo, aos produtos financeiros derivados particularmente tóxicos, os  CDS,  (CreditsDefaultSwaps) em caso de crise aberta  ou em caso de corrida aos bancos  (retiradas precipitadas de depósitos nos bancos). Os bancos que sucumbirem  devemigualmente também ser resgatados, seja mesmo por  um euro, por um dólar, iéne ou libra esterlina. Esta fase será muito perigosa, porque a actividade de financiamento da economia será profundamente perturbada, provocando encerramentos  de empresas e adicionalmente, ainda   mais desemprego.

 

Mas o colapso de uma parte do sistema bancário mundial  vai ter uma contrapartida  positiva, que deve ser fortemente sublinhada. Este colapso permitirá aos Estados novamente proprietários dos seus bancos, anularem uma parte da sua dívida, uma vez que cada poder público seria directo proprietário de títulos de crédito sobre si-mesmo. Pode-se imaginar também acordos de compensação entre Estados para anular uma parte dos títulos estrangeiros detidos pelos bancos que agora seriam já públicos.

 

Para evitar um cenário completamente catastrófico, logo que seja feito o primeiro resgate de bancos, os  Estadosdevem imperativa e rapidamente restabelecer os circuitos de financiamento da economia. Com a consolidação dos bancos e a sua racionalização, será então importante, e em prioridade absoluta, impulsionar a actividade de crédito, a principal garantia de que se volta a reiniciar a recuperação das actividadeseconómicase do emprego. Neste caso, um caso de grande urgência, é claro que os bancos centrais perderiama sua independência. Pouco depois, estes novos sectores públicos bancários estariam emcondições de fornecerfinanciamentos a longo prazo,indispensáveis à criação de infra-estruturas da transição ecológica e energética.

 

Para terminar, é necessário retomar as razões  que impediram até ao presente a ocorrência desse cenário que  agora se tornou altamente provável.

 

Primeiro, há uma poderosa razão relacionada com os interesses dos sistemas de pensões de reforma por capitalização. Estes sistemas irão inexoravelmente perder,e muito mesmo, uma parte do seu valor bolsista que se irá transformar em fumo com o afundamento dos títulos dos bancos que estes fundos têm na sua carteira de activos . Estes interesses são sobretudo dos fundos do tipo anglo-saxónico, mas vários países europeus também aí perderiam bastante como por exemplo, a Holanda ou a Finlândia.

 

Mas há também razões ideológicas: comprar os bancos é obviamente estar a nacionalizá-los. Trata-se assim de dar aos Estados o poder de controlar a criação de dinheiro e do crédito. Até agora, uma larga franja do pensamento político, mas não apenas o pensamento neoliberal, recusa-se a encarar uma tal perspectiva, ao mesmo tempo que reconhecetambém que tais operações de retoma nas  mãos dos  Estados podem ser necessárias, com a condição que sejam apenas temporárias.

 

Mais fundamentalmente, a questão do período que se vai abrir é a questão  de saber se os Estados irão voltar ao abandono da soberania que eles consentiram relativamente aos bancos, em especial, aos maiores, quando se realizou a ruptura com os acordos de BrettonWoods,  em Agosto de 1971. Esta ruptura conduziuà posterior liberalização da esfera financeira, tornando”livre”, isto é determinadas pelos mercados, a formação das taxas de juro e das taxas de câmbio. Os bancos então substituíram-se aos estados, criando uma enorme indústria de produtos financeiros derivados que estiveram estes, depois, na base da crise financeira de 2007

Enquanto a economia mundial não tinha sofrido nenhuma crise financeira entre 1944 e 1971, depois deste período, desenvolve-se a instabilidade do sistema monetário e financeiro e as primeiras crises com carácter sistémico apareceram gradualmente sob a acção desses produtos derivados. É hoje necessário reconstruir o sistema monetário e financeiro internacional, promovendo-se obrigatoriamente novas regras de formação de taxas de câmbio e das taxas de juros, ao mesmo tempo que se devem começar a abrir perspectivas de uma moeda que seja concebida como um bem comum da humanidade.


Rachetons les banques pour un euro,  Le Monde., 9 de Julho de 2012

François Morin, Professor emérito  na Universidade de Toulouse e  também antigo membro do Conselho Geral do Banco de França e do Conselho de Análise Económica (CAE) , bem como autor dos livros Le nouveau mur de l’argent, essai sur la finance globalisée (Seuil 2006 et 2012), e  de Un Monde sans Wall Street (Seuil 2011).
Tradução do francês : Júlio Marques Mota

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