EM COMBATE – 123 – por José Brandão

Companhia de Caçadores 2700

 

GUINÉ
1970-1972

 

 

 

 

A NOSSA COMPANHIA

1 – Organização

A Companhia de Caçadores 2700 (CCaç 2700) teve como unidade mobilizadora o Regimento de Infantaria n.º 2, aquartelado na cidade de Abrantes e estava enquadrada no Batalhão de Caçadores 2912 (BCaç. 2912), do qual faziam também parte a CCaç 2699, comandada pelo capitão Miliciano João Fernando Rosa Caetano, responsável pelo sub-sector de Cancolim, a CCaç 2701, comandada pelo capitão Carlos Trindade Clemente, responsável pelo sub-sector do Saltinho, bem como a Companhia de Comando e Serviços (CCS), comandada pelo capitão Joaquim Rafael Ramos dos Santos e que se encontrava adstrita ao Comando do Batalhão, sediado em Galomaro.

 

Foi para nós extremamente frustrante que da Instrução de Especialidade, que decorreu entre Dezembro de 1969 e Janeiro de 1970, em Abrantes, só 24 praças tivessem transitado para a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO). Para além do afeiçoamento que se tinha criado, havia que começar quase tudo de novo, com a agravante de muitas das novas praças estarem rudimentarmente preparadas, tornando-se necessário adaptá-las ao ritmo que anteriormente tínhamos imprimido. Só com um grande esforço e a total entrega de oficiais, sargentos e praças se conseguiu atingir o nível que a todos desse confiança para a execução de tarefa que se avizinhava, onde o valor supremo (a vida) passaria a estar em jogo todos os dias.

 

No essencial, durante o IAO, que decorreu entre 23 de Janeiro e 28 de Fevereiro de 1970, no Centro de Instrução Militar (CIM) de Santa Margarida, local onde se deu a organização do Batalhão, foram treinadas situações de: patrulhamento, reacções a emboscadas, emboscadas, golpes de mão, batidas de zona, cercos e treino de tiro, na tentativa de preparar os militares o melhor possível para uma realidade de guerra que se lhes iria deparar.

A 16 de Abril teve lugar a festa de despedida do Batalhão. Após uma semana de licença, penosa para alguns de nós (no meu caso pessoal não tive coragem de me despedir de meus pais), pelas 3 da manhã de 24 de Abril partimos de Santa Margarida utilizando como meio de transporte o comboio, tendo desembarcado no Cais de Alcântara 3 horas e meia depois.

 

 

 

Batiam as 12 horas quando largamos da Gare Marítima de Alcântara no navio “Carvalho Araújo” com destino à Guiné.

Às 21 e 30 de 30 de Abril o navio fundeou ao largo de Bissau, iniciando-se pela manhã do primeiro de Maio o desembarque através do Rita Maria. Pernoitámos no Depósito de Adidos em Brá. Após umas noites mal dormidas, pelas 6 horas do dia 5 de Maio embarcámos na LDG (Lancha de Desembarque Grande) “Montante” até ao Xime de onde partimos em viaturas auto, quer militares, quer civis, rumo a Dulombi.

 

1.2 – Efectivos

 

Embarcámos para a Guiné sem que o quadro de efectivos que competia à nossa Companhia estivesse totalmente preenchido. É nesta perspectiva que em Junho vimos chegar o 1.º Sargento Hélder Panóias, elemento que se viria a demonstrar extremamente importante pela forma dedicada, eficiente, competente e prestimosa como desempenhou a sua missão. Pela mesma altura chegaram, também, os soldados David Coelho Jorge e José Luís Martins Monteiro. Lembrar-se-ão deste último, o Zé Luís, o básico. Foi o verdadeiro “bobo da corte”, onde ele estivesse não havia má disposição. Nunca me esquecerei de uma história que ele nos contou. Certo dia teve a desdita de, ao atravessar uma rua em Almada, ser atropelado por um automóvel. Ficou em tal estado que no hospital deram-no como morto sendo transferido para a morgue. Entretanto, um técnico alemão que estava a dar assistência ao Cristo-Rei, em Almada, estatela-se, e este sim falece realmente. Quando o funcionário da morgue coloca o alemão ao lado do Zé Luís, este mexe-se. Foi a sua salvação, e a nossa, pois sem ele a comissão tinha sido muito mais monótona.

Em Agosto é altura para recebermos o soldado Fernando António Cunha Lopes.
Em Dezembro, chega o Furriel João F. Costa, bem como o Furriel Enfermeiro Joaquim de Jesus Alves, em substituição do Furriel Hélder da Silva Coelho que havia entretanto baixado ao Hospital Militar de Doenças Infecto-Contagiosas (HMDIC).
Em Fevereiro de 1971, a Companhia recebe os soldados Manuel Fernando Cardoso de Almeida e Luís Gonçalves Alves. Chega também o Alferes Hélder Balsa que vem fazer um estágio para a Formação de Comandantes de Companhia. Por esta altura, o Exército começava a ter séria dificuldades para, dentro das suas fileiras, mobilizar capitães do Quadro que comandassem as sucessivas companhias de que necessitava, quer para render aqueles que estavam em fim de comissão, quer para ampliar a sua acção em novas frentes de batalha nos três teatros de operações, tendo sido utilizado o estratagema de graduar Alferes Milicianos, que se haviam distinguido no Curso de Oficiais Milicianos, em Capitães.

Em Março demos as boas-vindas ao 1.º Cabo Casimiro dos Santos Canelhas, passando a pertencer à Companhia, a partir de Maio, o soldado José da Silva Guerra, vindo da CCS do Batalhão, ao mesmo tempo que o soldado José da Costa Marinho faz o sentido inverso, no que é acompanhado, em Agosto, pelo soldado Serafim Martins Marques Carneiro. Em Setembro é recompletado o quadro com a chegada do soldado José Luís da Silva Navalha. Igual situação se passa, em Novembro, com a chegada dos soldados Carlos Alberto de Oliveira Rodrigues e José da S. Alves. Por outro lado, o Furriel João Costa é transferido para a CCaç 14 do BArt. 3844, experimentando sentido inverso o 1.º Cabo António Fernando da Silva, vindo da CCaç 3327.

 

1.3 – Operações.

 

A primeira operação executada pela Companhia teve lugar a 22 de Março de 1970 e tinha como nome de código “Ducado Interno”. Nela participaram o 1.º e 3.º Pelotão. Recordo que foi uma operação envolta em grande expectativa, não só por ser a primeira, como pelo facto de existir uma grande probabilidade de haver contacto directo com o inimigo, já que este poderia estar acampado no Jifim. Esta probabilidade era cimentada no facto de os elementos da Companhia que nós acabávamos de render, na parte final da comissão, numa atitude de certa forma compreensível, se defenderem, não pretendendo correr riscos de serem emboscados tivessem aligeirado a sua prestação operacional. Tal abrandamento permite que o inimigo se instale no território ao pressentir que não há acção por parte das nossas forças. Esta operação (e todas as outras) tinha como finalidade “detectar vestígios da passagem ou presença do inimigo, capturando-o ou destruindo-o se este se revelar” como nos é relatado nalguns documentos insertos no maço obtido no Arquivo Histórico Militar. A título de curiosidade refiro que esta operação teve o seguinte itinerário: Vendu Columbai, Rio Nhassi, Rio Tangeoul, Rio Lagui, Manguel, Rio Bissi, Paiai Numba, Rio Nhagama, Rio Sinhaudi, Rio Cantoro e Vendu Cantoro.

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