1.Sobre a nova geografia na Europa
(continuação)
Conheça essa máquina infernal que dá pelo nome BCE proibido de emprestar aos Estados mas a quem tudo é permitido quanto aos bancos privados. Dê então uma olhadela por estes dois gráficos desta nova geografia, onde se vê os empréstimos globais aos bancos, onde se sente por anda o dinheiro nosso a caminhar:
E agora veja então país a país por onde trabalha esta máquina, veja país a país os empréstimos à banca concedidos:
Uma só pergunta: que andaram eles a fazer, os nossos banqueiros, estes anos todos para colocarem em risco a solvabilidade do Banco Central Europeu, para além de ganharem milhões que nós agora estamos a pagar? Haverá por aí alguém que me saiba dizer? Mas sobretudo arranje alguém que lhe explique a razão pela qual se pode emprestar aos bancos e não aos Estados? Uma questão de colateral? Mas com os diabos, como é possível haver colateral de qualidade nos bancos falidos e nos valores pressupostos por estes gráficos, depois de tantos anos de crise, para poder ser esta a resposta possível? Pergunte, informe-se.
Mas nesta nova Europa pelos mercadores de vidas humanas agora construída também pode optar em vez de colateral clássico, garantias sobre activos tangíveis, dar como colateral a sua alma. Impossível? Não! Veja o que acontece num dos países por esta austeridade regida a Letónia:
“Um banqueiro da Letónia aceita almas como garantia, como colateral
Reuters | 03 Jul 2009
Estará pronto para entregar a sua alma para um empréstimo nestes tempos económicos difíceis? Na Letónia, onde a crise que se desencadeou foi mais intensa do que no resto da União Europeia, você pode fazê-lo.
Um tal um negócio está a ser oferecido pela empresa de credito Kontora em empréstimos concedidos e que tem como sua face pública a Viktor Mirosiichenko, 34 anos.
Os clientes têm de assinar um contrato, com as palavras «Aceito», em letras garrafais no topo. O cliente concorda que o colateral, a garantia, “isto é, a minha alma imortal”.
Mirosiichenko disse que a sua empresa não iria empregar cobradores de dívidas para receber o reembolso dos seus empréstimos se as pessoas se recusam a pagar e não prometeu que não haverá nenhuma violência física.
Os signatários só tem que dar seu nome e não mostrar qualquer dos documentos
“Se eles não pagarem, o que é que se pode fazer? Não têm eles, uma alma, que é tudo” disse ele à Reuters um escritório mínimo, que tem uma secretária, um computador e três cadeiras.
Utilizando óculos de sol, um fato preto e uma camisa branca com as palavras “Kontora” (escritório) nela estampada , ele põe a mão no seu bolso e coloca um maço de notas sobre a mesa para mostrar que o negócio é sério e não é nenhuma uma piada.
A Letónia foi o país da União Europeia que mais foi atingido pela crise económica. O desemprego é crescente e os bancos reduziram drasticamente os seus empréstimos, e sito significa que as pequenas empresas que oferecem empréstimos em pequenas quantidades com relativa facilidade se estão a tornar muito populares”. Pode pois vender a sua alma ao diabo sem nenhum problema nesta Europa em crise e deixe-a depois a passar nos cofres dos Bancos. E será que como colateral a sua alma também irá parar ao BCE como lixo tóxico? Alguma vez imaginava isto possível?
Mas mesmo aqui na Letónia, não se incomode, com toda a desgraça que o exemplo pressupõe, os novos geógrafos olham por nós, por toda a Europa, portanto, e dizem-nos o exemplo que deve ser seguido. E disso têm a certeza, a certeza de que não irão produzir nenhum sismo nas nossas vidas. Essa é a certeza deles, e é tanta mesmo que até nos desejam vida longa para a austeridade. Ouçamo-los, pois:
De acordo com Largarde e com o FMI, as políticas de austeridade da Letónia “could serve as an inspiration for European leaders grappling with the euro crisis.”. Na sua opinião a Letónia tem mostrado uma “collective determination and resilience” ao contrário de muitos países, uma vez que, conforme lhes disse a eles em Riga, a Letónia “Instead of spreading the pain over a number of years, doing it gently, you decided to go hard and to go quickly”.
E a conclusão imediata que se tira das lições da Letónia é sintetizada por Olivier Blanchard que nos diz relativamente às políticas do FMI que “our policies were too cautious on austerity, long live austerity!”. Em preparação para a Europa, portanto, os planos de ajustamento estrutural com que os homens do FMI pagos a mais de 600 dólares por dia iam matando os países em desenvolvimento nos anos 80 quando o neoliberalismo entrou em toda a força nas Instituições Internacionais. Em preparação portanto uma nova geografia económica, humana, social, para a Europa.
(continua)


