Sobre a nova geografia da União Europeia, de Riga a Nicósia, olhares sobre a sua geografia política e económica que na zona euro está a ser instalada.

Por Júlio Marques Mota

 

1.Sobre a nova geografia na Europa

 

(continuação)

 

Conheça essa máquina infernal que dá pelo nome BCE proibido de emprestar aos Estados mas a quem tudo é permitido quanto aos bancos privados. Dê então uma olhadela por estes dois gráficos desta nova geografia, onde se vê os empréstimos globais aos bancos, onde se sente por anda o dinheiro  nosso a caminhar:

 


 

E agora veja então país a país por onde trabalha esta máquina, veja país a país os empréstimos à banca concedidos:

 

 

 

 

Uma só pergunta: que andaram eles a fazer, os nossos banqueiros, estes anos todos para colocarem em risco a solvabilidade do Banco Central Europeu, para além de ganharem milhões que nós agora estamos a pagar?  Haverá por aí alguém que me saiba dizer? Mas sobretudo arranje alguém que lhe explique a razão pela qual se pode emprestar aos bancos e não aos Estados? Uma questão de colateral? Mas com os diabos, como é possível haver colateral de qualidade nos bancos falidos e nos valores pressupostos por estes gráficos, depois de tantos anos de crise, para poder ser esta a resposta possível? Pergunte, informe-se.  

 

Mas nesta nova Europa pelos mercadores de vidas humanas agora construída também pode optar em vez de colateral clássico, garantias sobre activos tangíveis, dar como colateral a sua alma. Impossível? Não! Veja o que acontece num dos países por esta austeridade regida a Letónia:

 

“Um  banqueiro da Letónia aceita almas como garantia, como colateral

  

Reuters | 03 Jul 2009

 

Estará pronto para entregar  a sua alma para um empréstimo nestes tempos económicos difíceis? Na Letónia, onde a crise que se desencadeou foi mais intensa do que no resto da União Europeia, você pode fazê-lo.

 

Um tal um negócio está a ser  oferecido pela empresa de credito Kontora em empréstimos concedidos e que tem como sua face pública a  Viktor Mirosiichenko, 34 anos.

 

Os clientes têm de assinar um contrato, com as palavras «Aceito», em letras garrafais no topo. O cliente concorda que o colateral, a garantia,  “isto é,  a  minha alma imortal”.

 

Mirosiichenko disse que a sua empresa não iria empregar cobradores de dívidas para  receber o reembolso dos seus empréstimos se as pessoas se recusam  a pagar e não prometeu que não haverá  nenhuma violência física.

 

Os signatários só tem que dar seu nome e não mostrar qualquer dos documentos

  

“Se eles não pagarem,  o que é que se  pode fazer? Não têm eles, uma alma, que é tudo” disse ele à Reuters um escritório mínimo, que tem  uma secretária, um computador e três cadeiras.

 

Utilizando óculos de sol, um fato  preto e uma camisa branca com as palavras “Kontora” (escritório) nela estampada , ele põe a mão no seu bolso e coloca  um maço  de notas sobre a mesa  para mostrar que o negócio é sério e não é nenhuma uma piada.

 

A Letónia foi o país da União Europeia que mais foi atingido pela  crise económica. O desemprego é crescente e os bancos reduziram drasticamente os seus empréstimos, e sito significa  que as  pequenas empresas que oferecem empréstimos em pequenas quantidades com relativa facilidade  se estão a tornar muito  populares”. Pode pois vender a sua alma ao diabo sem nenhum problema nesta Europa em crise e deixe-a depois a passar nos cofres dos Bancos. E será que como colateral a sua alma também irá parar ao BCE como lixo tóxico? Alguma vez imaginava isto possível? 

  

Mas mesmo aqui na Letónia, não se incomode, com toda a desgraça que o exemplo pressupõe, os novos geógrafos olham por nós, por toda a Europa, portanto, e dizem-nos o exemplo que deve ser seguido. E disso têm a certeza, a certeza de que não irão produzir nenhum sismo nas nossas vidas. Essa é a certeza deles, e é tanta mesmo  que até nos desejam vida longa para a austeridade. Ouçamo-los, pois:

 

De acordo com Largarde  e com o FMI,  as políticas de austeridade da Letónia “could serve as an inspiration for European leaders grappling with the euro crisis.”. Na sua opinião a Letónia tem mostrado uma  “collective determination and resilience” ao contrário de muitos países, uma vez que, conforme lhes disse a eles em Riga,   a Letónia “Instead of spreading the pain over a number of years, doing it gently, you decided to go hard and to go quickly”.

 

E a conclusão imediata que se tira das lições da Letónia é sintetizada por Olivier Blanchard que nos diz relativamente às políticas do FMI  que “our policies were too cautious on austerity, long live austerity!”. Em preparação para a Europa, portanto, os planos de ajustamento estrutural com que os homens do FMI pagos a mais de 600 dólares por dia iam matando os países em desenvolvimento nos anos 80 quando o neoliberalismo entrou em toda a força nas Instituições Internacionais. Em preparação portanto uma nova geografia económica, humana, social, para a Europa.  

 

(continua) 

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