Jorge de Sena – Portugal
(1919 – 1978)
ODE PARA O FUTURO
Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárneo, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
– apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós – de nós! – como de um sonho.
(de “Pedra Filosofal”)
Poeta, ficcionista, dramaturgo, conhecido pelos estudos sobre Camões e Fernando Pessoa, Exilou-se, primeiro para o Brasil, e depois para os Estados-Unidos, onde faleceu. Estreou-se como poeta com “Perseguição” (1942) e da sua extensa obra fazem parte, entre outros títulos: “Coroa da Terra” (1946), “Pedra Filosofal” (1950), “Metamorfoses” (1963), “Peregrinatio ad Loca Infecta” (1969), “Exorcismos” (1972).Recebeu o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina pela sua obra.

