POESIA AO AMANHECER (11) – por Manuel Simões

António Ramos Rosa – Portugal

(1924 –   )

“ESCREVO-TE COM O FOGO E A ÁGUA”

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te

no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal

perfeito e suave. Um fruto repousado,

uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

uma pergunta que não ouvi no inanimado,

um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

o grande sopro imóvel da primavera efémera.

(de “Volante verde”)

 

Co-fundador e director das revistas “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do meio-dia”, pontos de referência na evolução poética da segunda metade do século XX. Estudioso do fenómeno poético, publicou várias obras de crítica, de que se assinala “Poesia, Liberdade Livre” (1962). Eis alguns títulos da extensa obra poética: “”O grito claro” (1958), “Estou vivo e escrevo sol” (1966), “A construção do corpo” (1969), “O incêndio dos aspectos” (1980), “Figuras solares” (1996).

 

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