
Alberto João Jardim tem um número limitado de truques para obter resultados e espoliar o orçamento. Como um mau prestidigitador, vai tirando coelhos da cartola. Sem tirar a cartola ao coelho, ou seja, justiça lhe seja feita, o facto de o governo ser do seu partido não o comove e mantém a pressão e a chantagem.
A Madeira tem a importância que tem. É uma região bonita, como bonitas são outras regiões do País. A sua importância económica é limitada. Muitos Concelhos continentais têm maior peso e, sobretudo, não sugam de forma tão despudorada os limitados recursos do País. . Nem falamos de Lisboa ou do Porto. Ameaçar com a independência é um recurso que só não é disparatado porque tem surtido efeito. Primeiro que tudo, nada indica que os madeirenses, tirando os adeptos da FLAMA, aspirem mais à independência do que minhotos ou ribatejanos. A verdade é que ciclicamente a ameaça surge.
Durante uma intervenção numa cerimónia oficial, o presidente do Governo Regional lançou ao Governo da República o recorrente desafio, no sentido de permitir a realização de um referendo à autonomia madeirense. Jardim pede coragem aos governantes para que possam “assumir uma decisão democrática e permitir um referendo na Madeira que, de uma vez por todas, demonstre a vontade do povo madeirense, reforce a coesão nacional e encerre finalmente o contencioso da autonomia”.Contencioso, diga-se que existe, por iniciativa unilateral de Jardim.
Salazar dizia que a Pátria não se discute (salvo erro, quando lhe foi proposto pela Comissão de Curadorias da ONU a realização de um referendo sobre a autonomia do Estado Português da Índia). Mas não é verdade – as pátrias forjadas pelo colonialismo discutem-se. As que, como Espanha, Grã-Bretanha ou Bélgica, foram criadas como resposta a hegemonias ou a interesses conjunturais, também. Territórios que, como os da Madeira e Açores, foram povoados por gente do Continente, podem pela distância e isolamento criar características que justifiquem a sua independência. A vontade dos naturais deve ser soberana. Embora na Madeira não pareça existir tal desiderato, um referendo clarificaria a situação. Porque também há quem pense que nem sequer o actual estatuto de autonomia se justifica, devendo, pelo menos a Madeira, ser reintegrada na estrutura administrativa do País como distrito do Funchal.
Um referendo é boa ideia. Mas, seja qual for o resultado, de uma coisa podemos estar certos – Alberto João Jardim continuará com a sua boçalidade a manter mordomias, nepotismos e corrupções. Mesmo que o resultado lhe seja adverso, a chantagem vai continuar. Há coisas que nuncam mudam.
