DIÁRIO DE BORDO, 30 de Agosto de 2012

 

Uma das discussões mais frequentes entre pessoas de esquerda, ou que se dizem de esquerda, é sobre o que é a esquerda em si. E como se distingue da direita. Esta questão não perdeu importância, pelo contrário, as pessoas referem-se a ela cada vez mais, mesmo em conversas do seu dia a dia. É verdade que muitas vezes a abordam lamentando não se entender em que é que a esquerda se diferencia, ou se separa da direita.

Houve uma altura em que se aceitava, sem grandes dúvidas, que as pessoas (e as ideias, as organizações políticas, as instituições em geral, os movimentos sociais) se situavam à direita quando defendiam a manutenção de um statu quo ante. As pessoas, etc. situar-se-iam à esquerda quando advogavam mudanças significativas na sociedade, com relevo para a melhoria das condições de vida dos mais desfavorecidos e para uma maior igualdade social. O desenvolvimento económico que se verificou em largos períodos do século XX, fez com que se aceitasse generalizadamente o aumento do bem-estar como necessário e imprescindível. Surgiram então noções como a de que uma grande concentração de riqueza seria mais favorável ao aumento dessa mesma riqueza do que a sua dispersão por muitas mãos, e a de que uma intervenção mais alargada do estado leva a um bloqueio da sociedade, e a restrições nas liberdades individuais. Mesmo as grandes reflexões sobre o persistente fenómeno da pobreza não conseguiram deter o aumento de influência destas últimas ideias.

O papel da comunicação social, em todas as suas formas, tem sido fulcral neste confronto de ideias. Mas tem sido fulcral sobretudo na orientação e encaminhamento do debate, muito mais do que no seu aprofundamento, e no esclarecimento. Veja-se por exemplo o seguinte: quase toda a gente hoje em dia fala e discute os problemas das relações e condições de trabalho; pouquíssima gente aborda os problemas do direito à propriedade, quer pública, quer privada, e dos limites que lhe devem ser impostos. Por outras palavras, quase todos discutimos o direito ao trabalho, uns para lhe impor condições e (des)regulações, outros para o porem em causa como tal. Mas pouca gente aborda o direito à propriedade, nomeadamente  quando se trata da propriedade dos meios de produção. Mais simplesmente ainda:  discute-se cada vez mais a segurança no trabalho, nos seus vários sentidos, mas não se toca na propriedade dos meios de produção. A crise actual tem muito a ver com isto.

Vivemos sobre a égide do capitalismo. A essência deste é a tendência para a concentração do controlo da produção em poucas mãos. A crise actual tem posto em causa muito das nossas vidas. Vão-se ver duas coisas, cada vez mais claramente: a primeira, que para superar a crise é necessário alterar as concepções dominantes sobre o direito da propriedade, separando as concepções sobre a propriedade indispensável ao bem-estar de cada cidadão, das concepções relativas á propriedade dos meios de produção. E alterar prioritariamente, as concepções dominantes relativas aos produtos financeiros em geral. A segunda é que a direita é a favor da manutenção do capitalismo, a esquerda é contra.

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