Grande parte das pessoas, hoje em dia, vive em cidades. Na maior parte no mundo, nomeadamente no que, antes da implosão da URSS, era habitualmente chamado de terceiro mundo, existem aglomerados urbanos cada vez maiores, e continua a tendência para aumentarem. Os habitantes dos campos (veja-se o que se passa na China e na Índia, os dois países mais populosos do nosso globo, e também noutros mais pequenos), tendem a deixar as suas vidas tradicionais, em zonas de economia tradicional e vão para a cidade. Todos sabemos que este fenómeno ocorre em grandes proporções desde o início da Revolução Industrial, e que constitue o maior movimento de populações desde sempre. É verdade que tem havido alguns casos de movimentação de populações em sentido inverso, alguns deles forçados. Mas não serão relevantes no conjunto, pela sua dimensão. E uma nota: as tentativas de obrigar as pessoas a regressarem aos seus habitats de origem, estarão condenadas ao fracasso. Veja-se o que aconteceu no Camboja. Por muito ampliados que tenham sido os horrores que ali houve pela propaganda, não se pode ignorar que na sua origem esteve o desejo de um governo inepto e brutal de resolver por meios drásticos o problema da excessiva concentração da população em Pnom Penh, a capital do país.
Entretanto, o crescimento e a manutenção das cidades, na maior parte dos países, foram sendo assegurados por aquilo a que poderemos chamar o sistema capitalista. Na realidade a construção civil acabou por se tornar o maior negócio dos últimos cem anos, em competição com o automóvel, a indústria farmacêutica, a indústria de armamento (é verdade que o volume e o valor desta são mal conhecidos), a produção agro-alimentar. Só talvez o petróleo e seus derivados rivalizem com a construção civil, em valor e em interesse estratégico, nunca em número de postos de trabalho criados, e em efeitos multiplicadores para a economia em geral.
A chamada crise que nos avassala, e que está a servir de pretexto para nos reduzir à miséria e a outras coisas, tecnicamente terá tido a sua origem nos excessos cometidos com as hipotecas feitas por muitos cidadãos de muitos países para conseguirem comprar uma casa, a começar pelos EUA. Entretanto, é sabido que em muitos países, incluindo em Portugal, há excesso de construção, mesmo de construção para habitação. No nosso país, fala-se em quinhentos mil fogos a mais. É curioso assinalar, para referência, que em 1969 havia quinhentos mil fogos a menos. Em pouco mais de quarenta anos, passou-se de certo modo para o valor oposto. Esta situação já foi apontada como um exemplo da capacidade do país, por uma pessoa como o arquitecto Souto Moura, Prémio Pritzker de Arquitectura. Contudo continua a ser problema para muita gente conseguir ter uma casa, vistos os seus custos elevados, nos chamados mercados de compra e arrendamento. E de empresas de construção civil estão com graves problemas. Os seus trabalhadores têm sido despedidos em massa, engrossando em centenas de milhar o número de desempregados.
A maioria das cidades está em mau estado de conservação. As cidades portuguesas, com a excepção de algumas capitais de distrito, são disso exemplo. Nota-se uma dificuldade considerável na readaptação do sector da construção civil para fazer face a esta realidade, que não se pode considerar nova. É claro que se trata de mais um assunto que não poderá ser resolvido pelo chamado livre jogo do mercado. E é preciso compreender que dar a resposta neste campo, o da reabilitação urbana, é uma das soluções mais adequadas para sairmos da chamada crise que nos é imposta.

