POESIA AO AMANHECER (29) – por Manuel Simões

Luiza Neto Jorge – Portugal

( 1939 – 1989 )

MINIBIOGRAFIA

Não me quero com o tempo nem com a moda

Olho como um deus para tudo de alto

Mas zás! Do motor corpo o mau ressalto

Me faz a todo o passo errar a coda.

Agora adoeço, envelheço, esqueço

Oquanto a vida é gesto e amor é foda:

Diferente me concebo e só do avesso

O formato mulher se me acomoda.

E se a neve vier do fundo espaço

Cedo raptar-me, assassinar-me cedo:

Logo me leve, subirei sem medo

À cena do mais árduo e do mais escasso

.

Um poema deixo, ao retardador:

Meia palavra a bom entendedor

(da revista “Pravda”, final de 1988)

A sua poesia carcterizou-se sempre pela transgressão como voz desolada mas agressiva contra o senso comum. Estreou-se com “Noite Vertebrada” (1960), distinguindo-se depois entre o grupo de poetas de “Poesia 61” com o livro “Quarta Dimensão”. Publicou a seguir: “Terra Imóvel” (1964), “O seu a seu Tempo” (1966), “Dezanove recantos” (1969), “Os Sítios Sitiados” (1973). O livro “A lume” (1989) foi publicado postumamente. “Minibiografia” parece ter sido o último poema que escreveu.

Leave a Reply