DIÁRIO DE BORDO de 14 de Setembro de 2012

Passando em revista a história do Partido Socialista, desde a sua fundação até aos nossos dias, dificilmente encontramos um secretário-geral tão amorfo como António José Seguro e tão explicitamente contrário aos princípios fundacionais proclamados em Abril de 1973 em Bad Münstereifel e que tinham a ver com o movimento trabalhista internacional e com a social-democracia. Porém, no interior de um PS que nada parece ter a ver com a Internacional Socialista, ainda há quem, como Luís Amado, vá a uma reunião do PSD criticar as «posições radicais» de Seguro. Mas, perante as atitudes titubeantes da actual direcção, as hostes socialistas agitaram-se e ontem o secretário-geral do PS declarou perante os órgãos de informação que o seu partido irá votar contra o Orçamento do Estado para 2013, acrescentando que se o Governo mantiver proposta de aumento da TSU para os trabalhadores, o partido apresentará uma moção de censura.

Uma hora depois, o primeiro-ministro veio reafirmar a alteração da Taxa Social Única. Passos Coelho reconhece alguma contestação no interior do PSD e do CDS-PP em relação às medidas de austeridade anunciadas para o Orçamento do Estado para 2013, mas diz que nem lhe passa pela cabeça que a maioria vote contra a proposta governamental na Assembleia da República. No campo da maioria, o CDS-PP mantém o silêncio – o PSD elogia a coerência do governo «aperfeiçoando» as medidas já anunciadas. A   Esquerda condena a insistência na austeridade. Tudo normal. Até quando, o animal a que se chama povo, vai suportar as agressões e esta humilhante arrogância com que um imbecil, um serventuário menor do poder económico, lhe impõe sacrifícios sobre sacrifícios?

Com o ar compungido, Passos Coelho vai demonstrando a coragem e a convicção com que os ditadores sacrificam os povos. A mesma coragem com que Salazar respondeu ao desafio de levar a Sociedade das Nações a aprovar um empréstimo de 12 milhões de libras.  No seu discurso da sala do Conselho de Estado, em 27 de Abril de 1928, no acto da posse de Ministro das Finanças, disse -«Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar».

Salazar talvez soubesse o que queria e para onde ia – queria impor as suas teorias e submeter o País a uma ditadura onde essas teorias passadas à prática não pudessem ser contestadas. Passos Coelho, decorridos mais de 80 anos, não pode aspirar a que o povo obedeça quando se chegar à altura de mandar. O espírito conservador, o sentido de que a sua verdade deve prevalecer, são semelhantes – a inteligência de um e de outro e, principalmente, as circunstâncias e os contextos, são completamente diferentes. Desfasamento que faz prever uma tragédia. Mais uma.

 

1 Comment

Leave a Reply