Há dias estive numa assembleia municipal. Apareceu uma moção contra a austeridade, contra a política do governo Passos/Portas, mais uma entre muitas que agora aparecem por todo o lado. Os partidários Passos/Portas retorquiram: a situação actual resulta de quinze anos de socialismo. Foram desmentidos, claro, e o argumento principal em que as respostas se basearam foi: os governos de José Sócrates, Guterres, etc., foram constituídos pelo partido socialista, mas não desenvolveram políticas socialistas. Isto que ocorreu naquela assembleia municipal constitui uma situação semelhante a outras que se têm verificado pelo país, a todos os níveis, em diversas situações, desde que o Dr. Mário Soares fechou o socialismo na gaveta, de onde o partido que ele na altura chefiava nunca mais o tirou, antes o fechou bem fechado. Apenas manteve o nome.
Não se pode negar que o partido socialista nunca fez uma política socialista. Pode-se é fazer duas perguntas: 1) Porque continuou a chamar-se socialista? 2) Quantas pessoas votaram ou seguiram de algum modo o partido socialista, convictas de que a clausura do socialismo na gaveta seria temporária? É duvidoso que alguma vez se consiga uma resposta minimamente convincente, ou minimente credível, a estas perguntas.
A direita portuguesa tem tirado um enorme partido deste equívoco. Sempre que, com razão ou sem ela, critica as actuações dos governos de Mário Soares, Guterres, Sócrates, etc. intitula-os de governos socialistas, e não de governos do partido socialista. Assim consegue desacreditar as ideias socialistas, apesar de estas praticamente nunca terem sido aplicadas no nosso país. A nacionalização dos bancos, a criação de um serviço nacional de saúde, o alargamento da educação pública, cada um por si, ou mesmo em conjunto, não equivalem à implantação do socialismo.
Duas coisas são verdade. Uma, esta manipulação de conceitos, ou deturpação de ideias, conforme se lhe queira chamar, não tem sido feita apenas em relação ao socialismo. O mesmo se pode dizer do liberalismo, que no passado foi uma ideologia que preconizava que cada um deveria ter liberdade para participar na vida política, social, cultural, e hoje em dia se aplica apenas à liberdade de os detentores do capital investirem onde e como melhor entenderem.
A segunda verdade é que a manipulação/deturpação de conceitos é feita sistematicamente por todo o lado, não só em Portugal. Inclusive houve Margaret Thatcher, que quando qualquer coisa a atrapalhava, nomeadamente se dizia respeito a direitos comuns dos cidadãos, falava logo em socialismo.
Mas sobre isto permitam-me que lhes refira um artigo saído no El País, no dia 1 de Setembro, numa página de opinião. Chama-se La ocupación del lenguaje, e é da autoria de dois professores da UCM – Universidad Complutense de Madrid e um da URJC – Universidad Rey Juan Carlos. Dizem a certa altura que a direita, para além de impor em toda a sua radicalidade o modelo neoliberal, está a tentar impor uma mudança de mentalidades que seja passível de normalização, e assim exercer a hegemonia cultural mediante o controle das representações colectivas. Dão muitos exemplos, e citam a neolíngua que George Orwell enfabulou para o seu 1984. E mostram como a operacionalização de conceitos deturpados ajuda a pôr em prática e a fazer aceitar políticas prejudiciais às pessoas, como por exemplo no campo da saúde, os slogans para convencer a opinião pública de que o serviço nacional de saúde gratuito é insustentável. Outro caso, noutro campo, é a confusão de liberdade com segurança: “investir em segurança garante a tua liberdade”.
