O PATO ALGEMADO – II

O Pato algemado – II

O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO – O imprinting – por Sérgio Madeira

Filipe Marlove, o investigador «discreto e eficaz», como dizia o anúncio diário do Correio da Manhã, sentado num banco da estação ferroviária de Darmstadt,  esperava a passagem do comboio para Frankfurt. Ali, tomaria o avião de regresso a Lisboa. Meditava sobre a sua actividade. O seu nome era prosaico – Filipe Pereira – leitor devoto de Chandler, hesitara entre homenagear Philip Marlowe , a criatura, ou Raymond Chandler o criador. Raimundo Veleiro, fora uma das hipóteses – mas optara por Filipe Marlove. Lera e relera O Imenso Adeus, Perdeu-se uma Mulher, A Dama do Lago, À Beira do Abismo… as obras de Raymond Chandler. Distinguia já as traduções de Mário Henrique Leiria das de Mascarenhas Barreto. O primeiro, pesando cada palavra em balança de prata, o segundo acumulando a influência que mais tarde resultaria na rocambolesca invenção de um Cristóvão Colombo que mais não seria do que um discreto e eficaz investigador contratado por D. João II… Eram leituras de culto. Que acentuavam o fosso entre o clima de poético mistério que rodeava os casos de Marlowe  e o ambiente sórdido em que Marlove se movia. Nos livros de Chandler a chuva era uma poalha nostálgica; na Lisboa de Marlove a chuva era uma morrinha chata, de «molha tolos», que impregnava os pés e provocava espirros.

Os trabalhos de investigação de presumíveis adultérios, constituíam a grande maioria das suas investigações. Horas dentro do carro, vigiando portas de pensões e de prédios de habitação. Detestava esse tipo de trabalho, mas era o que lhe permitia sobreviver, pagar a renda do escritório e o ordenado de Marília. A perspicaz e borbulhenta secretária. Eram casos lineares, e sem mistério.  Ele gostava de mistérios e apenas lhe apareciam dúvidas, dívidas e infidelidades conjugais.

Acreditava que raramente as coisas são o que parecem e que é preciso procurar a sua verdadeira natureza sob a camada superficial das aparências. Costumava dizer que a vida é um palimpsesto – ou seja que sob uma escrita visível há outro texto e que é preciso ler esse – preferia as explicações complicadas e considerava-se um exemplo vivo da tese do imprinting, o fenómeno caracterizado pelo etologista austríaco, Konrad Lorenz.

O imprinting é um comportamento típico de crias de patos ou pintainhos – quando saem dos ovos, seguem o primeiro objecto em movimento que encontrarem no ambiente – pode ser a sua mãe pata ou galinha ou qualquer outro animal ou coisa que se mova. Gera-se um vínculo social entre a cria e o animal ou artefacto. A tese de Konrad Lorenz explicava, quanto a Filipe, duas características suas – tropeçava em tapetes e em palavras. Para Filipe, a sua tendência para embrulhar os pés em tapetes, passadeiras, capachos, era um caso de imprinting – prestara serviço militar no Regimento de Comandos. Logo no primeiro dia da recruta, um sargento gritara-lhe aos ouvidos  – «O soldado comando olha sempre em frente!». O berro, talvez ajudado pela chuva de perdigotos em que veio embrulhado, ficou impresso na região do cérebro que comandava a locomoção. Imprinting! O tropeço em palavras e nos conceitos que transportam, devera-se ao professor de Filosofia, o Dr.. Parreira, que lhe impusera a ideia de que o campo semântico de cada palavra é uma charneca imensa onde, procurando bem, se encontra o que parece lá não estar. Imprinting!

O inspector Pais da PJ, que o protegia quando nas suas investigações ultrapassava os limites impostos à actividade de investigador privado, ouvira a longa exposição da teoria e sintetizara: «Você é um engonhado e um coca-bichinhos!» – e acrescentara – «mas tem cá uma inteligência do c.». Esta obscenidade era um superlativo que o inspector usava, geralmente com conotação elogiosa. Era um homem grande e com bigodes, que cofiava com ar pensativo, sobretudo quando não estava a pensar nada. De resto, pensar era actividade a que pouco se dedicava.  Para não ter problemas de aprofundamento semântico, reduzira o seu vocabulário de especulação filosófica a três expressões: «estrordianário!» (admiração); «lógico!» (aprendera com o Figo e era de confirmção). «dass!» – função multiusos que cobria várias situações.

O comboio para Frankfurt chegou. Segurando o jornal que comprara no quiosque do átrio, quando se sentou e o desdobrou, lembrou-se de que não sabia alemão. Mas estava habituado a comprar o Diário de Notícias e o Correio da Manhã todas as manhãs em que vinha no comboio da Amadora, onde morava, para o Rossio, pois tinha o escritório na Rua dos Correeiros. – Imprinting! – murmurou. E sentando-se junto de uma janela, olhou os títulos incompreensíveis do Frankfurter Allgemeine. Fingindo ler  o ilegível jornal, recordou um caso complicado – o da Louça das Caldas, ou melhor a Louca das Caldas – ou seja a Louca do Caldas

A seguir – A Louca do Caldas

Uma história de patos

Três mulheres morreram num acidente de automóvel e foram para o céu. À entrada, cumpridas as formalidades, São Pedro avisou:

– Aqui no céu só há uma regra. Não pisar os patos.

Elas acharam a regra esquisita, mas quando finalmente atravessaram as portas, perceberam que era quase impossível andar sem pisar um pato. O Paraíso estava forrado de patos! Ainda meio confusa, uma das mulheres pisou um pato que grasnou furiosamente. Minutos depois, São Pedro apareceu com uma corrente, um cadeado e o homem mais feio que ela já tinha visto e disse:

– Não cumpriste a regra… O teu castigo é viveres toda a eternidade acorrentada a este homem.

Dias depois, a segunda mulher cometeu o mesmo erro – pisou um pato – grasnadela atroadora e como antes São Pedro acorrentou-a ao homem mais feio que ela vira em dias da sua vida (e de sua morte) e disse:

– O teu castigo é viver por toda a eternidade amarrada a este homem.

Perante estes exemplos, a terceira mulher passou a ser extremamente cuidadosa. Conseguiu nunca pisar um dos milhares de milhões de patos que por ali vagueavam. Passaram alguns meses e, um dia, São Pedro apareceu com um homem de uma grande beleza – o rapaz mais bonito que ela alguma vez vira (“é lindo”- pensou para consigo) – acorrentou-a a ele. Não percebendo o que se passava, ficou quieta. Quando São Pedro se afastou, disse ao maravilhoso jovem :

– O que será que fiz para receber este prémio?. O rapaz respondeu:

– A senhora não sei. Eu… pisei um pato!

E, para terminar:

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