EM VIAGEM PELA TURQUIA – 4 – por António Gomes Marques

Podemos dizer, resumidamente, que a Ilíada se constrói à volta da ira de Aquiles e que a Odisseia trata do regresso a casa de Ulisses, após a vitória em Tróia, residindo nestas talvez a razão da sua unidade. Sabe-se que os Aedos da Ásia Menor cantavam numerosas lendas, a partir do século IX a.n.e. e terá sido a partir delas que Homero ou, não tendo este existido, alguns organizadores – um, dois ou mais? -, com grande genialidade acabaram por nos oferecer o que para a História ficou conhecido como os Poemas Homéricos.

Historiadores há que têm procurado utilizar os poemas como base do seu trabalho, lembrando fontes como as autênticas tradições aqueias, os poemas fenícios de Ugarit e Sidon e as narrativas dos navegadores fenícios e gregos que, esquecendo os heróis e as descrições fantasiosas, confirmam muitos dos factos que constam dos poemas e que ajudam a caraterizar a monarquia existente naqueles tempos, o fraccionamento do território, a vida agrária e a produção artesanal, a complexidade da religião.

Mas a nossa viagem tem de continuar. Apesar de estarmos a menos de 100 km da mítica Tróia, palco principal da Íliada, que é hoje o nome de um sítio arqueológico em Hissarlik, junto à costa onde está hoje a província de Çanakkale, a sudoeste do Monte Ida.

Tenha ou não acontecido, a Guerra de Tróia sobreviveu na mitologia e nas lendas gregas, tornando-se as causas da guerra conhecidas a partir dos dois citados poemas Homéricos, a Ilíada e a Odisseia. A Ilíada compõe-se de 24 cantos, com 15 mil versos. Não relata toda a Guerra de Tróia, fixando-se no segundo ano deste conflito, a partir «de uma azeda disputa» entre Agamémnon e Aquiles e «a narração não chega a descrever a morte de Aquiles – tantas vezes anunciada – nem a queda de Ílion», de que tomaremos conhecimento na Odisseia («Estudos de História da Cultura Clássica-Cultura Grega», Mª Helena da Rocha Pereira – F. C. Gulbenkian, 2.ª edição, Lisboa, Dezembro de 1967), com o célebre cavalo de pau, ideia de Ulisses.

                                                                                                                     Cavalo de madeira em Tróia

A  nossa viagem vai em sentido contrário, 65 km para Sul de Izmir (Esmirna), ao encontro de Éfeso, de que falaremos de seguida, não sem primeiro invocarmos as míticas cidade e Guerra de Tróia, transcrevendo, da Íliada, um pouco do combate entre Aquiles e Heitor, na citada tradução de Frederico Lourenço:

      Assim dizendo, desembainhou a espada afiada,

      que pendia sob o flanco, espada enorme e potente;

      reunindo as suas forças, lançou-se como a águia de voo sublime,

      que através das nuvens escuras se lança em direcção à planície

  para arrebatar um terno cordeiro ou tímida lebre –

      assim arremeteu Heitor, brandindo a espada afiada.

      E Aquiles atirou-se a ele, com o coração cheio de ira

      selvagem, e cobriu o peito à frente com o escudo,

      belo e variegado, agitando o elmo luzente

de quatro chifres. Belas se agitavam as crinas

      douradas, que Hefesto pusera cerradas como penacho.

      Como o astro que surge entre as outras estrelas no negrume da noite,

      a estrela da tarde, que é o astro mais belo que está no céu –

      assim reluziu a ponta da lança, que Aquiles apontou

na mão direita, preparando a desgraça para o divino Heitor,

      olhando para a bela carne, para ver onde melhor seria penetrada.

      Ora todo o corpo de Heitor estava revestido pelas brônzeas armas,

      belas, que ele despira a Pátroclo depois de o matar.

      Mas aparecia, no sítio onde a clavícula se separa do pescoço

e dos ombros, a garganta, onde rapidíssimo é o fim da vida.

      Foi aí que com a lança arremeteu furioso o divino Aquiles, 

e a ponta trespassou completamente o pescoço macio.

Fotografia aérea de Tróia, Turquia

     

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