Temos dito por diversas vezes que uma forma, talvez a única, de a esquerda parlamentar justificar a sua existência, seria de se unir em torno de questões concretas. Na presente situação, uma questão concreta consiste não só na necessidade e urgência absolutas de derrubar este executivo, como também na criação de uma alternativa que possa convencer um parte do eleitorado a não entrar no infernal labirinto da «alternância democrática» que, sendo alternante, nada tem de democrática, pois coloca no poder gente sem qualidade, títeres descartáveis do poder económico. Títeres que as jotas do PSD e PS, como as «canteras» dos clubes de futebol, fabricam em doses avultadas. E a ideologia tem um papel tão insignificante na fabricação destes políticos, que até há quem formado na jota do PSD, venha a ser primeiro-ministro de um governo PS. Isto para não falar no contingente de neo-liberais que o MRPP forneceu ao universo da «democracia representativa».
O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português anunciaram ontem que vão apresentar moções de censura ao Governo PSD/CDS. Francisco Louçã explicou que a moção é apresentada por se considerar que o executivo “deixou de ter condições de credibilidade para dirigir o país”.. O coordenador bloquista desafiou Passos Coelho “a apresentar-se hoje ou amanhã perante o país e a apresentar a todos aquilo que já negociou perante alguns, a dizer às vítimas o que já disse aos credores, a dizer a toda a gente, porque é assim a democracia, aquilo que propõe que seja o futuro deste sistema fiscal”. A moção de censura ao Governo foi entregue ontem no Parlamento e deverá ser debatida na próxima quinta-feira. Uma hora depois de o Bloco de Esquerda ter apresentado a sua moção de censura, Jerónimo de Sousa informou que o PCP decidira apresentar uma moção própria perante a “gigantesca manifestação convocada pela CGTP” e para dar “eco institucional” no Parlamento aos protestos populares Oxalá as votações sejam coerentes e não assistamos a abstenções pecepistas na moção bloquista e vice-versa.
O secretário-geral do PS convocou para hoje uma reunião da Comissão Política, na qual será definido o sentido de voto face às moções de censura ao Governo apresentadas pelo PCP e Bloco de Esquerda. Grande surpresa seria o PS votar favoravelmente as moções. Mas é uma surpresa da qual os nossos corações devem estar livres.

