Não sei se já repararam na bandeirinha verde-rubra que eles trazem na lapela do casaco no estilo patrioteiro dos políticos norte-americanos. Um pin – como agora se diz – reproduzindo a bandeira nascida com a República implantada no 5 de Outubro de 1910 que, na sequência de uma subserviente negociata com a Igreja, aparentemente vai deixar de ser dia feriado, para que a produtividade aumente… Não sei, portanto, se repararam nesse detalhe anódino fruto, decerto, de qualquer recomendação de um brilhante “conselheiro de imagem”, mas que ilustra bem a vacuidade de quem nos governa. Gente imatura, fascinada pelo poder a que ascendeu graças ao medíocre sistema político que eu e muitos mais ajudámos a construir (e desta responsabilidade não nos podemos redimir) , gente cheia de pose e de prosápia.
Mas o drama é que um pouco por toda a Europa outros personagens semelhantes estão à frente dos destinos dos povos, e todos, de uma forma convergente, sob a batuta da Alemanha, com as suas políticas vão conduzir-nos para anos de retrocesso e recessão, depois de terem deixado os grandes grupos financeiros e as diversas máfias legais dos negócios destruírem o Estado-Providência e sistematicamente eliminarem conquistas conseguidas pela luta de gerações durante mais de um século.
Por isso, para todos estes governantes e para os nossos que ostentam a tal bandeirinha, ideais como o de República e o de Democracia, valores como o de justiça social e o de bem comum, princípios como o da subordinação da economia à política, ou de soberania e dignidade nacionais, são empecilhos à gestão pragmática e contabilística de uma crise que penaliza os que para ela não contribuíram e acaba por premiar os que por ela foram responsáveis.
O Orçamento de Estado, agora aprovado, é o produto monstruoso e anticonstitucional, não só de uma enorme insensibilidade social, mas também de uma incomensurável cegueira político-económica que nem Salazar demonstrou ter, mesmo governando em ditadura. E o que torna tudo ainda mais triste e bloqueado é não se vislumbrar, por parte da oposição dita socialista, qualquer esboço de alternativa a esse programa governamental de empobrecimento que, obviamente, só ajuda a empurrar o país mais para o fundo. Com efeito, e demonstrando um singular sentido táctico, o líder do PS anunciou desde o início do processo de discussão o seu voto final mesmo antes de negociar o que quer que seja, entregando-se, posteriormente, a um pueril exercício semelhante ao do fanfarrão de bairro que diz, sem convencer ninguém: “Agarrem-me senão faço uma desgraça!”.
É verdade que este partido do rotativismo actual não pode iludir as suas responsabilidades no passado recente e os compromissos assumidos com os emprestadores exteriores que nos irão cobrar 34 mil milhões de euros de juros e cerca de 700 milhões de comissões. Porém, ao adoptar tal atitude demissionista, acaba por se tornar cúmplice de tudo o que a aplicação das medidas do Governo acarretarem de nefasto e desastroso. Por outro lado, tanto Passos Coelho como António José Seguro são produtos de escolas parecidas, “jotinhas” para quem a politiquice partidária sempre foi um modo de vida – “não sabem o que é a vida” como dizia, com felicidade, Jerónimo de Sousa -, confundem a política com a verborreia, o marketing e as manipulações de aparelho em assembleias e congressos, têm poucas ideias e voláteis convicções. Todavia, a POLÍTICA, a governação da polis, sobretudo em situações como as que vivemos é, deve ser, mais do que isso.
Precisamos, efectivamente, não só aqui, mas também no resto da Europa, de verdadeiros Estadistas. Não falo de homens (ou mulheres) providenciais, mas de gente que governe no interesse dos povos e não dos mercados. Como encontrá-los? Como levá-los ao poder? Francamente não sei, assim de forma rápida e milagrosa. Não sei como no curto prazo conseguiremos livrar-nos daquele Chicago boy ministro das Finanças (será mesmo de carne e osso?) ou daquele outro senhor ministro da Economia que julgo ter desembarcado de Marte – só para citar estes. Mas acreditemos que nem tudo está perdido se não deixarmos que a esperança se perca. A indignação não basta. É preciso que se gere um grande movimento de defesa da República – regime de cidadãos, não de súbditos – e da Democracia.


Fernando, meu amigo e camarada
Aprendemos de pequeninos -e já estamos a chegar à velhice – que a esperança é a última coisa a morrer; no nosso caso, talvez só morra connosco, ou seja, quando a este mundo já não pertencermos.
Os actuais partidos políticos não têm capacidade para gerar alguém que tenha capacidade para governar o país, a começar por aquele onde militamos, ou melhor, aquele a quem ainda vamos pagando as quotas. Assim, a nossa esperança tem de voltar-se para um grande movimento de defesa da República, como lhe chamas e eu concordo. Mas, pergunto, como passar do movimento para a acção que leve à constituição de uma Assembleia e de um Governo? Temos muito que trabalhar e a imaginação de todos tem de funcionar.
Fico por aqui, mas voltarei ao assunto, se tu assim quiseres. Esperemos que outros se juntem.
Recebe o abraço amigo do
António