Num artigo do Público, Jorge Almeida Fernandes, escrevendo sobre a questão catalã, pergunta “Vai a Espanha desintegrar-se? Talvez não”. Temos dedicado muito do nosso espaço à questão de Espanha. E estamos mesmo a projectar um debate sobre o tema – «Espanha, existe?» – é o título; pergunta a que muitos respondem não e que outros nem sequer compreendem como pode ser formulada tal interrogação.
A maneira como colocamos o problema é a de que Espanha partiu de um projecto gizado há mais de quinhentos anos pelos reis católicos e que começou por ser um abuso ao designar por Espanha o que apenas eram dois reinos; Espanha foi uma castelhanização de Hispania, que designa toda a Península. O que faz de nós hispanos, mas não espanhóis. Já antes, Afonso VII de Leão, primo do nosso Afonso I, se intitulara abusivamente «imperador das Hispanias». Em 1230, Castela absorvia Leão e começava a substituir o leonês pelo castelhano. Leonês de que o nosso mirandês parece ser uma das derradeiras bolsas de sobrevivência.
Após a união de Castela com Aragão, a primeira vítima foi um dos reinos fundacionais – Aragão, onde imperava a cultura catalã e Barcelona era a cidade mais importante, foi engolida por Castela que, como se disse, já antes apagara Leão, reino antigo e de onde Portugal e Galiza pertenciam. E Castela, pobre, sem recursos, foi abocanhando tudo o que a rodeava, impondo a sua cultura e tentando destruir as circundantes. Em 1812, nas cortes de Cádis, o crime foi oficializado – Espanha que até então não tinha existência de jure, passou a existir como estado. Duzentos anos depois, os problemas emergem e Espanha, estado artificial, como a União Soviética, como a Jugoslávia, como a Grã-Bretanha e a Checoslováquia, poderá dar lugar a um conjunto de nações pré-existentes. Na Grã-Bretanha, a Escócia parece dar sinais de impaciência…
Discutir este tema é importante porque Espanha é um estado construído pela violência, pela usurpação de outros territórios e pela sua aculturação A jangada de pedra que Saramago fazia chegar às Américas, pode desconjuntar-se. Vai a Espanha desintegrar-se? Talvez sim.

