POESIA AO AMANHECER – 58 – por Manuel Simões

Giuseppe Ungaretti – Itália

(1888 – 1970)

LUCCA

Em minha casa, no Egipto, depois da ceia e de rezado o rosário, minha mãe

falava-me destes lugares.

A cidade tem um movimento entre timorato e fanático.

Ao pé destas muralhas só se está de passagem.

Aqui a meta é partir.

Sentei-me à fresca à porta da pensão com gente que me fala da Califórnia

como de uma propriedade sua.

Descubro-me aterrado nos sinais particulares destas pessoas.

Sinto agora nas minhas veias o correr quente do sangue dos meus mortos.

Também eu peguei numa enxada.

Nas coxas fumegantes da terra surpreendo-me rindo.

Adeus desejos, nostalgias.

Sei quando um homem pode saber do passado e do futuro.

Conheço já o meu destino e a minha origem.

Já não me falta nada que profanar nem que sonhar.

Já gozei e sofri tudo.

Não me resta senão resignar-me a morrer.

Criarei portanto tranquilamente uma prole.

Quando um apetite maligno me impelia atrás de amores mortais louvava a vida.

Agora que considero, também eu, o amor como uma garantia da espécie,

tenho presente a morte.

(de “Allegria di naufragi”, versão de Pedro da Silveira)

Nascido e criado no Egipto (Alexandria), de pais italianos, já vivia em Itália no início da 1ª Grande Guerra. A sua obra poética compreende os volumes “Il porto sepolto” (1919), “Allegria di naufragi” (1919), “Sentimento del tempo” (1933), “La terra promessa” (1950), entre outros. Reuniu a sua poesia na edição definitiva “Vita d’un uomo”. Em português, podemos dispor de 5 poemas traduzidos por Pedro da Silveira (“Mesa de Amigos”, Assírio & Alvim, 2002).

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