Eugenio Montale – Itália
(1896 – 1981)
A HISTÓRIA (II)
A história não é pois
a devastante escavadora de que se fala.
Deixa galerias, criptas, cavidades
e esconderijos. Há quem sobreviva.
A história é até benévola: destrói
tudo quanto pode: se exagerasse, é certo
seria melhor, mas a história tem falta
de notícias, não cumpre todas as suas vinganças.
A história arranha o fundo
como uma rede de arrasto
com alguns furos e escapam alguns peixes.
Às vezes encontra-se o ectoplasma
de um fugitivo e não parece particularmente feliz.
Ignora que está fora, ninguém lhe falou disso.
Os outros, presos nas redes, acham-se
mais livres do que ele.
(de “Satura”, trad. de José Manuel de Vasconcelos)
Prémio Nobel para a Literatura em 1975. Ao seu primeiro livro, “Ossi di seppia” (1925), seguem-se: “La casa dei doganieri” (1932), “Le occasioni” (1939), “La bufera e altro” (1956), “Farfalla di Dinard” (1956), “Satura” (1971), “Diario del ’71 e Diario del ‘72” (1973). Traduções portuguesas: “Primavera Hitleriana & Outros Poemas” (1981, trad. de Manuel Simões), “Poesia” (2004), trad. de José Manuel de Vasconcelos.

