POESIA AO AMANHECER – 59 – por Manuel Simões

Eugenio Montale – Itália

(1896 – 1981)

A HISTÓRIA (II)

A história não é pois

a devastante escavadora de que se fala.

Deixa galerias, criptas, cavidades

e esconderijos. Há quem sobreviva.

A história é até benévola: destrói

tudo quanto pode: se exagerasse, é certo

seria melhor, mas a história tem falta

de notícias, não cumpre todas as suas vinganças.

A história arranha o fundo

como uma rede de arrasto

com alguns furos e escapam alguns peixes.

Às vezes encontra-se o ectoplasma

de um fugitivo e não parece particularmente feliz.

Ignora que está fora, ninguém lhe falou disso.

Os outros, presos nas redes, acham-se

mais livres do que ele.

(de “Satura”, trad. de José Manuel de Vasconcelos)

Prémio Nobel para a Literatura em 1975. Ao seu primeiro livro, “Ossi di seppia”  (1925), seguem-se: “La casa dei doganieri” (1932), “Le occasioni” (1939), “La bufera e altro” (1956), “Farfalla di Dinard” (1956), “Satura” (1971), “Diario del ’71 e Diario del ‘72” (1973). Traduções portuguesas: “Primavera Hitleriana & Outros Poemas” (1981, trad. de Manuel Simões), “Poesia” (2004), trad. de José Manuel de Vasconcelos.

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