DEUSES, ARTE E MAGIA – por Carlos Loures

Este é o terceiro artigo de uma série que resolvi não numerar, porque são textos autónomos, ainda que subordinados a um tema comum – o papel da arte nos dias de hoje. Nos dois artigos anteriores recorri à mitologia grega e usei um verso de Jean-Arthur Rimbaud – Donc le poète est vraiment voleur de feu – referência ao mito de Prometeu que, desafiando a fúria dos deuses, roubou o fogo do Olimpo para o ofertar aos mortais. De certo modo, esse é o papel do poeta – transformar em beleza conjuntos de  palavras que, uma por uma, são vocábulos banais. É um acto de magia. Só alguns o conseguem embora muitos o simulem. Mas a questão que levantava no primeiro texto (Ladrões de fogo) era o de o poeta, para poder ganhar o pão, usar a magia para compor frases publicitárias. Um poeta como O’Neill escrevendo textos publicitários para um colchão ou para um berbequim. Um feiticeiro usando indevidamente o feitiço, para poder sobreviver.

No segundo texto (Arte e marketing?) levantei o problema de o artista estar, na sociedade capitalista, abandonado à sua sorte – ou produz arte vendível ou terá de mudar de actividade. As leis do mercado e o gosto deformado do público, determinam o seu êxito ou o seu  fracasso. Como qualquer produto, a obra de arte, o livro, a peça musical, têm uma qualidade técnica (ou seja um valor intríseco) e uma qualidade percebida (ou seja, o valor que o mercado no seu conjunto lhe atribui). E aqui passamos para esta terceira reflexão sobre este tema. que embora o título não o diga, tem a ver com a a arte no quotidiano.

A questão principal deve desde já ser colocada – a qualidade técnica de um produto só pode ser avaliada por peritos e, no caso da arte, os peritos analisam uma obra à luz dos conceitos de uma época. Se Pedro de Andrade Caminha era por muitos preferido a Luís de Camões, se Júlio Dantas era mais famoso do que Fernando Pessoa, se José Rodrigues dos Santos vende mais do que Lobo Antunes, isto apenas significa que Andrade Caminha, Dantas e Rodrigues dos Santos, escrevem aquilo que o mercado deseja. Camões e Pessoa, são os símbolos maiores da literatura portuguesa. Cminha e Dantas são conhecidos por estudiosos. Não estou a comparar Lobo Antunes a Camões e a Pessoa, pois dó um futuro que não   viverei dirá quem ssão os escritores e os artistas que marcam esta época. E Saramago? Saramago  foi um escritor que conciliou arte com gosto de mercado. Não sei se os seus livros daqui por cem ou duzentos anos serão lidos com o prazer com que hoje lemos um soneto de Camões ou a Ode Marítima de Álvaro de Campos. Abrir portas é a função da arte. Mas há quem prefira passar por portas abertas.

O filsófo austríaco Ernst Fischer e o seu ensaio Da Necessidade da Arte, continua a ser a espinha dorsal destes textos. Fisher salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

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