SETE NUVENS NEGRAS SOBRE O MUNDO, SOBRE A EUROPA NESTE FIM DE VERÃO, NESTE PRINCÍPIO DE OUTONO DE 2012.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

(continuação)

Quarta nuvem

(4) A nova política do BCE: não é uma mudança decisiva, não é um ponto de viragem

(Isto foi muito bem explicado por Albert Edward de Société Générale,  a 14 de Setembro  de 2012:..)

“Claramente as acções feitas pelo BCE compram apenas  tempo. Mas tempo para quê? Se o médico tiver diagnosticada a doença e está a aplicar  o medicamento errado, todo  o tempo do mundo que seja não verá  a recuperação do paciente. Há ainda uma preciosa pequena aceitação de que não se trata de uma crise orçamental  que terá colocado de joelhos o  crescimento dos países da  periferia. Este é um clássico problema de crise de financiamento da balança  de pagamentos de que a crise orçamental  é apenas um sintoma.

A medida que entramos em crise, destacam-se os desequilíbrios comerciais crescentes que se estavam a construir  dentro da zona euro. Os GIPS (excluindo a Itália) tiveram um forte crescimento de crédito como consequência directa de uma taxa de juro da zona euro inadequadamente baixa, a mesma para todos, a taxa de juro da zona euro. Do  crescimento da procura  interna  nos GIPS resultaram enormes défices  comerciais e da balança  corrente que são as  imagens ao  espelho de excedentes noutros países da zona euro sendo assim mais notavelmente pela parte da Alemanha  ( a balança corrente de toda a zona euro como um todo  pode grosso modo ser considerada em  equilíbrio com o resto do mundo).

Na verdade, a dimensão dos défices  em conta corrente dos GIPS e o valor acumulado destes desequilíbrios  comerciais, isto é, a posição da dívida líquida externa Internacional,  são os mais claros  e maiores sinais de alerta do subsequente colapso económico   dos GIPS . O problema aqui  é que nada parece ter mudado seja o que for ou, se mudou, então mudou muitíssimo pouco.

Apesar dos GIPS estarem em recessão profunda, se é que não se pode chamar já de grande depressão, é surpreendente que os desequilíbrios externos acumulados ainda  estejam completamente por corrigir. Também surpreendentes foram os  dados sobre as  ordens de encomendas sobre produtos da Alemanha do mês de Julho, pois que embora as novas ordens globalmente se tenham estabilizado  as  ordens de encomenda de exportações parecem continuar a comportarem-se muito bem apesar do fraco comportamento da zona euro fraco e do cenário global. Os dados de Julho sugerem que qualquer fraqueza que haja na série global das ordens de encomendas será  então de ordem da procura interna e não do sector de bens exportáveis.”

 

Tal como muitos já assim o disseram e muitas  vezes, retornando à  criação do euro, a estrutura da UEM está errada, está incorrectamente construída. As medidas tomadas até à data, tais como as deprimentes taxas de curto prazo da dívida soberana e a concessão de empréstimos que não podem ser reembolsados, só compram  tempo para as reformas estruturais. A crise começou em Março de 2010, e desperdiçaram-se já 2,5 anos de tempo. O tratamento de base tem sido o de aplicar medidas de austeridade, ao mesmo tempo que esperam pela fada com a sua varinha mágica para lhes abençoar o seu trabalho. Este tem falhado brutalmente até agora e provavelmente vai continuar a falhar. E entretanto, porque à medida que as políticas de austeridade se sucedem e a situação social se complica, somos levados a concordar com o analista financeiro Albert Edwards quando nos  diz que a Alemanha é o grande  manipulador do valor das divisas porque os seus principais mercados de exportação (a periferia europeia) possivelmente não podem desvalorizar as suas próprias moedas contra a da Alemanha, situação esta que torna  os países da periferia prisioneiros do próprio sistema europeu a atolarem-se em profunda Depressão  e sem nenhuma saída à  vista. Aqui  talvez valha a pena

Deve-se reler a revista  The Economist sobre a crise actual e os paralelos com a de 1931 onde nos dizem :

“Sendo assim a  prolongada debilidade económica está a contribuir para uma ampla reavaliação do valor do capitalismo liberal.  Os países estão-se a debater com uma insuficiência da procura  e estão  agora a intervir nos mercados  cambiais — os suíços estão a viver com os seus francos  a apreciarem-se contra o euro e a ganharem com isso. O  Senado  americano  tem procurado   punir a China pela  manipulação da sua moeda  com tarifas. Na Europa a turbulência da crise do euro está a encorajar os nacionalismos  agressivos, alguns deles racistas mesmo.  Os seus  extremismos são leves  quando comparado com os horrores do nazismo que  destruíram um  continente mas  dificilmente poderão alguma vez serem  bem-vindos .

A situação ainda não está ainda irreparável. Mas a tarefa de  reparar os enormes estragos  torna-se tanto mais   difícil  quanto mais tarde se iniciar a reparação  . As lições da década de 1930 pouparam o mundo de muita dor económica  após o choque da crise financeira de 2008. Não é demais recordar outras lições essenciais da Depressão. Ignorá-las então pode significar que a história bem se venha a repetir. “ A situação não está irreparável mas o tempo social para o fazer é cada vez mais curto. Aguardemos, activamente.

(continua)

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