Edoardo Sanguineti – Itália
( 1930 – 2010 )
REISEBILDER, 34
ao funcionário da alfândega em mini-saia, que me escolheu, com seus olhos
de sibila
e de pomba, numa fila interminável de viajantes em trânsito, disse
toda a verdade, apertado num vão-confessional de madeira
prensada:
disse que tenho um filho que estuda russo e alemão:
que “Bonjour les amis”, curso de língua francesa em 4 volumes, era
para a minha mulher.
estava disposto a conceder mais: sabia que foi Rosa de
Luxemburgo
a lançar a palavra d’ordem “socialismo ou barbárie”: e podia
tirar disso um madrigal estrepitoso:
mas suava, procurando nos bolsos,
buscando em vão a conta do Operncafé*: e depois fizeste irrupção
tu, trazendo atrás também as crianças, maravilhosas e maravilhadas:
(apertavamos-te com os mesmos gestos duros, eu e aquela minha beatriz
democrática fardada):
mas, para mim, o irreparável estava já consumado, ali
na fronteira entre as duas Berlim, quarentão seduzido por um polícia.
*O café do Teatro da Ópera de Berlim Leste
(de “Wirrwarr”, versão de Manuel Simões)
Teórico da neo-vanguarda a partir da publicação da antologia “I Novissimi” (1961). Estreia-se com “Laborintus” (1956), destacando-se a seguir: “Wirrwarr” (1972), “Catamerone” (1974), “Scartabello” (1981), “Novissimum Testamentum” (1986), “Corollario” (1997). A sua poesia encontra-se reunida em “Mikrokosmos. Poesie 1951-2004” (2004).

