(Adão Cruz)
Querida amiga,
A crise atravessa a esquina da vida. Um aperto do peito rouba o ar.
Em época de bonança, na adolescencia sempre que eu reclamava da vida minha mãe, lembrava a história de uma família judia de pais, avós, filhos, tios, primos e irmãos, que viveu durante anos numa cave, na Alemanha nazista, até serem encontrados e despachados para um campo de concentração.
Na cave, a comida era escassa, por vezes não havendo senão um pão para partilhar. Do lado de fora, perdido na sua ignorância o homem perseguia o seu semelhante. Do lado de dentro o medo era companhia continuada. Ana, a filha mais nova fez aniversário. A família fez uma roda, partilhou o pão, dançou e celebrou a vida.
Tento sair do espaço 3 por 4 que desenho no dia a dia, na ilusão de que este é o meu território seguro. Tento que o mundo não seja uma fotocópia a preto e branco, e redutora. Só consigo quando estou presente ao outro, que é sempre tão importante quanto eu – porque sem ele pouco de mim sobraria.
Neste momento tão difícil celebro a vida, esse onde descubro o intervalo da minha existência.



Há cartas de amor e há cartas de AMIZADE, aquele sentimento que nos leva ao desabafo, à empatia, a esta magia que se chama ser simplesmente gente. Obrigada às duas por ressuscitarem algo sem preço, um estar wque não se vende, um bjo do tamanho do pensamento e da alma que aqui li!
E eu já venho atrasada para responder à carta da Ethel: agradecer a amizade e retribuir com o Jardim de amanhã.