EM VIAGEM PELA TURQUIA – 28 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Mas nem tudo foi tão facilitado como deveria para esta vitória das forças turcas. As relações entre Mustafá Kemal e o comandante alemão, Liman von Sanders, sobretudo após a partida de Esat Pașa, que regressou a Istambul para comandar o 1.º Exército, foram-se deteriorando, sobretudo por Mustafá Kemal não se disponibilizar para cumprir os desejos militares do alemão, e em boa hora o fez, devendo-se também o êxito de Mustafá Kemal contra as forças aliadas a esta discordância, não cumprindo com o que lhe era solicitado por von Sanders. (v. Mango, Andrew, «Atatürk», cap. 8). Como nos informa Andrew Mango, o êxito de Mustafá Kemal foi muito sólido, mas não é menos verdade que também contribuiu para o seu êxito o papel desempenhado por outros comandantes, turcos e alemães, na derrota das forças aliadas. Apesar dos vários erros cometidos por Liman von Sanders, nunca deixou de procurar colocar forças onde elas foram sendo necessárias (v. o. c.). Todos contribuíram para a vitória em Galípoli e para a defesa de Istambul, mas foi de Mustafá Kemal o grande contributo para a defesa da capital turca. «Galípoli foi o alicerce da carreira de Mustafá Kemal», diz Andrew Mango e não podemos deixar de lhe dar razão.

                      

Soldados turcos na defesa de Galípoli (Fonte: Wikipédia)

 Foram nove meses de combates que se saldaram com a morte de mais de 46.000 combatentes; no entanto, há historiadores que apontam para 180.000 mortos aliados e 220.000 mortos do lado turco.

 Outros números são apresentados noutros textos, que apontam para 220.000 baixas entre os aliados, com 43.000 mortos, enquanto, do lado turco, apontam para 250.000 baixas, com 65.000 mortos. Andrew Mango, na obra citada, diz-nos que, do lado das forças turcas, houve «55.000 mortos em acção, 21.000 mortos por doença, 100.000 feridos, 64.000 retirados por invalidez durante os combates e 10.000 desaparecidos» (Mango, Andrew, o. c., pág. 156). Norman Stone, na obra de que acima transcrevemos algumas passagens, afirma que os Aliados tiveram meio milhão de baixas e os Turcos um quarto de milhão.

 Independentemente de quem tem razão nos números que apresenta, fácil é concluir que os combates em Galípoli tiveram terríveis consequências em perdas humanas, tornando-se num acontecimento terrível na história da humanidade.

 Enquanto na Turquia esta campanha é conhecida como a Batalha de Çanakkale, na Grã-Bretanha é apelidada de Campanha de Dardanelos e, na Austrália e Nova Zelândia, a campanha é identificada como Galípoli (em turco: Gelibolu).

 A intenção dos aliados seria tomar Constantinopla (Istambul), entrando pelo estreito de Dardanelos, objectivo esse gorado como acima se descreve. Foi uma campanha que ficou na história de todas as nações envolvidas, mas na história da Turquia tem um significado mais profundo, sendo um momento definitivo na sua história, criando as bases para a chamada Guerra da Independência Turca, bem documentada no Museu respectivo existente no Mausoléu de Atatürk, como já referimos. fazendo com que Mustafá Kemal passasse a ser considerado um grande comandante militar e um herói nacional, tendo sido, após o período das Cruzadas, o primeiro otomano a derrotar um exército ocidental, recebendo o título de Paxá, ou seja, Comandante, ele que até aí era um militar desconhecido. Foi esta Guerra da Independência que viria a tornar possível, sob o seu comando, a fundação da República Turca em 1923.

 Fonte: Wikipédia

Mas retomemos a pequena biografia de Mustafá Kemal. A seu tempo falaremos da Guerra da Independência e da fundação da República Turca.

Em 1 de Junho de 1915 foi promovido a Coronel e, a 10 de Dezembro, vai para Constantinopla (Istambul).

Em 9 de Janeiro de 1916, os Aliados completam a evacuação de Galípoli. Em 27 de Janeiro, Mustafá Kemal é nomeado comandante do 16.º Corpo do Exército, com o qual é transferido para a frente caucasiana, sendo promovido a Brigadeiro no dia 1 de Abril do mesmo ano. No início de Agosto reconquista Bitlis e Muş aos russos, mas vem a ser obrigado por estes a abandonar Muş no final de Setembro.

No ano seguinte, 1917, é nomeado Comandante do 2.º Exército a 7 de Março, e do 7.º Exército em 5 de Julho, na Síria, de que vem a renunciar em 4 de Outubro, regressando a Constantinopla. Em Dezembro acompanha o legítimo herdeiro do Sultão, Vahdettin, numa visita à Alemanha. Entretanto, aconteceu a Revolução Russa, dando origem à desintegração do exército do Czar na frente de batalha no Cáucaso.

O ano seguinte não começa da melhor maneira para Mustafá Kemal dado que, em 25 de Maio, é obrigado a deixar Constantinopla para
tratamento médico em Viena e Karlsbad. Em 7 de Julho morre o Sultão Mehmet V, sucedendo-lhe Vahdettin como Mehmet VI. Em 7 de Agosto Mustafá Kemal é de novo nomeado Comandante do 7.º Exército Otomano na Síria /Palestina, de onde vem a ser expulso pelas tropas britânicas como resultado da ofensiva por estas iniciada em 16 de Setembro, mas Mustafá Kemal, à frente das suas tropas, em cujo comando tinha substituído o general alemão Otto Liman von Sanders após este ter perdido a batalha de Megiddo, faz parar esta ofensiva britânica a 26 de Outubro em Katma, ao norte de Aleppo.

 (C0ntinua)

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